Artigo completo sobre São Bento do Mato: Silêncio e Montado no Alentejo
Freguesia alentejana com 991 habitantes, três monumentos classificados e tradição vinícola secular
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A cal das paredes devolve o sol da tarde como se fosse um ferro de engomar esquecido no lume. Em São Bento do Mato, a 322 metros de altitude, o silêncio é tão grosso que se quase se corta — só o ranger da porta da Pastelaria Central, ao meio-dia, ou o cão do Zé Manel que ladra ao carteiro. Dizem que são 14 almas por km², mas isso é inventar: basta olhar para a estrada e ver que nem um burro passa.
O Alentejo que se mede aos passos
A freguesia estende-se por ali fora como um lençol mal esticado. Sobro e azinho, umas vinhas que o sogro do António ainda consegue vindimar, e oliveiras que só o tractor do Joaquim conhece de cor. Há três monumentos classificados — um deles até tem placa, os outros dois é preciso perguntar à D. Rosa, que tem a chave e abre se lhe trouxer um pacote de bolachas.
Évora fica a dezasseis minutos de carro, mas pode levar meia hora se for na carrinha dos legumes. A cidade tem ruas romanas e turistas atrapalhados; aqui tem-se a Estrada Nacional e o café onde se entra pela porta certa — senão o Sr. Queixa reclama.
O que se come, o que se cria
O azeite é o mesmo que leva para casa quem tem família na terra: frasco de dois litros, boca larga, etiqueta de impressora. O queijo de Évora pede-se curado "mas não seco que nem pedra", o padeiro corta-o com fio de nylon. O borrego é mesmo de Montemor — não o compre no Intermarché, espere pela feira de terça.
Há três sítios para dormir: a casa da avó da Céu, que agora é alojamento local; os quartos da herdade onde se faz o donativo para a bomba de gasóleo; e o chão da casa do Zé, se ele gostar da cara. Não há televisão por cabo, mas há Netflix se a rede aguentar — o que não é garantido quando o vento vem do norte.
Demografia em chiaroscuro
Há 94 miúdos e 355 velhos. Faz as contas. O colégio fechou há quinze anos, a enfermeira vem à terça e à sexta, e a farmácia é em São Manços — se for urgência, vai-se de carro ou vai-se de táxi, que é o Zé Manel com o Fiat Punto.
Mas olhe: há tractores novos (dois), há quem replante olival (o filho do Joaquim que esteve no Luxemburgo), e há internet nas cabanas de campo — 30 megas, que chegam para a neta fazer Zoom com o namorado de Lisboa.
À noite, as luzes acendem-se como pontos de café bica: casa da D. Rosa, casa do Zé, casa do António — e depois o escuro. O cheiro a lenha é o primeiro aviso do Inverno; o canto do mocho é o despertador de todos os dias. São Bento do Mato não tem monumentos para selfie. Tem antes o silêncio que deixa ouvir o próprio pensamento — e isso, hoje em dia, é mais raro que um cão que ladre ao luar.