Artigo completo sobre Silveiras: onde a planície alentejana respira espaço
Igreja da Natividade, minas desativadas e 110 km² de montado entre céu e terra no coração do Alentej
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A luz da manhã bate na cal branca da Igreja de Nossa Senhora da Natividade e devolve um brilho que magoa os olhos. O adro está vazio, o silêncio só interrompido pelo ranger da porta do Café Central quando o Zé Pires vai buscar o pão. Silveiras acorda devagar, como sempre - o primeiro café demora-se, o primeiro bocejo demora-se, o primeiro cigarro demora-se. Aqui, na planície alentejana, o horizonte é uma coisa que se pode tocar: basta estender o braço e a linha do montado fica logo ali, onde o azul do céu parece cosido ao chão seco.
São 110 quilómetros quadrados de azinheira e sobreiro, de terra que racha no Verão e que no Inverno se transforma numa esponja de lama. Vivem aqui 3612 almas - contei-as no Censos, mas o padre diz que são mais, porque ninguém quer declarar a avó que vive no quarto das traseiras. A verdade é que se sente: há casas com portas fechadas há anos, há quintais onde só crescem silvas, há conversas que começam com "lembra-se quando..." porque o presente por vezes escasseia.
O peso do ferro e da pedra
Nas minas da Safira, o ferro começou a ser extraído quando o meu avô usava calças de padrão. Conta-se que as vagonetas desciam carregadas até ao estaleiro, onde os homens - eram sempre homens - faziam rodar o mundo com músculos e mau humor. Hoje, os túneis estão enterrados, mas ainda se encontram pregos enferrujados no chão, e quando se escava para plantar uma oliveira, o azulejo da pedra negra aparece logo ali, a lembrar que primeiro foi o ferro, depois foi a vinha, depois foi o abandono.
A pedreira de Pedras Alvas deixou um buraco que a chuva transformou em lagoa. As crianças novas não sabem, mas o meu irmão mais velho lá perdeu uma sandália quando se atreveu a pisar a água turva. Dizem que no fundo há máquinas inteiras - esteiras, britadeiras, um mundo submerso que ninguém quer resgatar.
A igreja paroquial mantém-se de pé, teimosa. O seu campanário inclinado para Norte não é defeito - é a prova que até as pedras se cansam de vez em quando. Lá dentro, o cheiro a cera e a alfazema mistura-se com o suor dos domingos. Os bancos de madeira têm as pegadas de gerações: nomes riscados com canivete, datas que já ninguém comemora, um "Manuel + Rosa" que deve ser da minha prima Rosa, mas ela nega com vergonha.
À mesa, o Alentejo autêntico
O Borrego de Montemor não precisa de selo IGP para ser reconhecido - basta cheirar a roupa da vizinha quando ela abre o forno às 6 da manhã. A carne prova a azinheira que os animais roem, prova o tempo que aqui não tem pressa. O queijo de Évora, esse sim, tem DOP, mas o que interessa é que o António da Quinta do Cano ainda o faz no tronco de sobreiro, com o cardo que o pai dele ensinou a apanhar. O mel é mais recente - chegaram as abelhas alemãs, vieram os capacetes brancos, mas o sabor continua a ser o do rosmaninho que floresce depois da primeira chuva de Outubro.
Nos dias de matança, o fumeiro ocupa a cave inteira. A chouriça fica a fumar durante três semanas, e quando a minha mãe a corta, o papel de embrulho fica manchado de paprika como se fosse um mapa. As migas são feitas com pão do outro dia - nunca do mesmo dia, isso é regra - e o alho é sempre do quintal, porque o do supermercado "não tem dente".
Habitar a planície
Dos 14 lugares onde se pode dormir, 12 têm a minha prima Ana feitos as camas. Ela começou com um quarto disponível, agora tem três casas recuperadas e um gato chamado Fadista que adora turistas espanhóis. Os hospedes chegam geralmente perdidos - o GPS falha ali na rotunda da estrada nacional - mas é nessa altura que se vê a diferença: quem procura Silveiras não procura programa, procura silêncio que se possa ouvir.
A escola tem 37 alunos. A professora mais velha, a D. Amélia, lembra-se quando eram 200, e ainda assim diz que "agora é que se aprende, não há bulhas". O café do Sr. Joaquim tem Wi-Fi desde 2019, mas o pessoal continua a ir lá para discutir se o Benfica ou o Sporting, como se o tempo tivesse parado nos anos 90.
Quando o sol se põe por trás da Serra de Monfurado, as frentes das casas ganham uma cor de mel que faz parecer que estão todas acesas por dentro. É nessa altura que o sino toca - trinca-ferro, sete badaladas, depois mais três. Cada uma demora o seu tempo a cheirar, como se o ar fosse mais denso. As crianças dizem que é o padre a avisar que é hora de jantar, mas nós sabemos que é apenas o dia a despedir-se, como faz todos os dias, sem surpresas nem pressa.