Artigo completo sobre Pavia: Sinos, Relíquias Romanas e Montado Alentejano
Freguesia de Mora onde o pelourinho manuelino vigia 185 km² de planície entre azinheiras e sobro
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O sino da Igreja Matriz bate três vezes ao meio da tarde e o som viaja sem pressa pelos 31,26 km² da freguesia. Em Pavia, o bronze ressoa diferente — não há prédios que devolvam o eco, apenas montado de sobro e azinheira que absorvem o toque. Nas ruas estreitas do núcleo antigo, a cal das casas reflecte a luz crua de maio. Ao fundo, o pelourinho manuelino ergue-se em granito cinzento, testemunha do foral concedido por D. Manuel I em 1519 — o único exemplar deste tipo no concelho de Mora.
Pedra, talha e ossadas de Roma
A Igreja Matriz, reconstruída após o terramoto de 1858, guarda séculos entre paredes que misturam traça manuelina com a sobriedade posterior. Dentro, o retábulo barroco em talha dourada captura a pouca luz que entra pelas janelas altas. Num nicho lateral, um relicário discreto encerra fragmentos de ossadas de mártires cristãos trazidos de Roma no século XVI — relíquias que atravessaram meio continente para repousar aqui. No adro, o cruzeiro de 1606 exibe a escultura do Senhor dos Passos. A poucos metros, a antiga cadeia, encerrada desde 1974, alberga agora um núcleo museológico onde alfaias agrícolas convivem com paramentos bordados a fio de ouro dos confrades da Eira.
Fora do perímetro amuralhado medieval, a ermida de Nossa Senhora da Saúde aguarda o segundo domingo de maio. Nesse dia, a procissão sai da Matriz às 10h30, percorrendo as ruas ao som da Banda Filarmónica local. À noite, o arraial ocupa o largo — luzes coloridas entre postes, chouriço assado na brasa, vozes que se sobrepõem ao acordeão de José "O Tinoco", que toca há 40 anos nestas festas.
Borrego, espargos e canela
Na cozinha de Pavia, o Borrego de Montemor-o-Novo IGP entra no forno de lenha temperado com alecrim e tomilho do montado. O ensopado de borrego com hortelã fresca marca as mesas de festa — receita da Maria "A Formiga", que o serve na Tasca do Zé desde 1983. Na Primavera, entre Março e Abril, os espargos silvestres rebentam entre o xisto. Preparam-se migas que guardam o travo amargo da terra. A sopa de cação com coentros — herança de famílias de pescadores de Setúbal que aqui se estabeleceram nos anos 50 — sobrevive nas receitas das avós.
No Café Central, os bolinhos de tacho com canela esfriam sobre papel pardo. Os queijinhos de amêndoa, moldados à mão por Dona Alda, exibem formas imperfeitas. À mesa, os vinhos da Cooperativa de Granja-Amareleja acompanham o borrego, enquanto a aguardente de medronho da destilaria do Sr. Joaquim encerra a refeição.
Rota entre cortiços e garças
A Ribeira de Seda corta o território em diagonal, criando zonas húmidas onde garças e abutres-do-egito procuram alimento ao amanhecer. A Rota do Cortiço percorre oito quilómetros entre Pavia e a herdade da Serra, atravessando montado onde o sobro exibe troncos descascados. Os antigos cortiços de campo — estruturas circulares de pedra solta — resistem como marcos de propriedade dos tempos da Casa de Bragança.
Do miradouro do Azinhal, a planície estende-se dourada até onde a vista alcança. Oliveiras centenárias pontuam a paisagem — troncos retorcidos que ainda produzem azeite no lagar cooperativo de Pavia, fundado em 1956. Nas pastagens naturais, ovelhas de raça merina movem-se em grupos compactos, guiadas por António "O Cabrito", último pastor transumante da freguesia.
Versos ao desafio e céu limpo
No verão, a Festa de São João acende fogueiras no largo a 23 de Junho. O Cante ao Desafido sobrevive em serões na Casa do Povo — improvisam-se versos ao som de violas campaniças, com Joaquim "O da Bica" e Manuel "O Sete" a duelarem desde os anos 70. A Feira de Outubro, antiga feira de gado declarada em 1923, mantém-se no primeiro fim-de-semana do mês — agricultores avaliam borregos ao olho, artesãos vendem mel da Serra d'Ossa em potes de vidro reutilizados.
À noite, quando as luzes da vila se apagam por volta da meia-noite, o campo de futebol transforma-se em observatório. O céu alentejano, limpo de poluição luminosa — Pavia ficou a 2 km da Estrada Nacional quando a IP2 foi construída em 1999 — revela a Via Láctea. Deitado na relva seca, ouve-se apenas o vento nas azinheiras e, ao longe, o ladrar do Bobi que vigia a herdade do Sr. Costa.