Artigo completo sobre Ferreiras: onde Albufeira respira longe do mar
A 80 metros de altitude, esta freguesia algarvia vive entre citrinos, terra vermelha e ritmo próprio
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O cheiro a terra vermelha aquece o ar da manhã. A oitenta metros de altitude, a brisa que sobe do litoral chega aqui já domesticada, sem sal, misturada com o aroma seco da esteva e o travo adocicado dos citrinos que amadurecem nos quintais. Ferreiras acorda sem pressa, com o som distante de um motor de rega e o ladrar intermitente de um cão algures entre muros caiados. Estamos a poucos quilómetros das praias de Albufeira, mas a paisagem — e sobretudo o ritmo — pertence a outro mundo.
Onde o Algarve respira a oitenta metros
A freguesia estende-se por 22,36 km² de terreno ondulado, uma extensão generosa que contrasta com a imagem compacta que se tem do litoral algarvio. Com 7 267 habitantes recenseados em 2021, Ferreiras mantém uma densidade que permite cruzar vizinhos na rua sem nunca sentir multidão — 325 pessoas por cada quilómetro quadrado, o suficiente para que haja vida nas artérias principais e silêncio nos caminhos de terra batida que serpenteiam entre parcelas agrícolas. É um equilíbrio raro, sobretudo nesta zona do Algarve, onde a pressão turística costuma ditar as regras.
O que impressiona de imediato é a simetria demográfica: 1 192 jovens até aos catorze anos e 1 190 residentes com mais de sessenta e cinco. Os números quase idênticos desenham uma comunidade que não se esvaziou nem envelheceu de forma dramática — antes se renovou, atraindo famílias que procuram proximidade ao mar sem viver mergulhadas nele. As 3 330 habitações existentes confirmam esse perfil: gente que escolheu ficar, não apenas passar.
A cor e o peso dos citrinos
Não se pode falar de Ferreiras sem falar de laranjeiras. A freguesia insere-se na região de produção dos Citrinos do Algarve IGP, uma indicação geográfica protegida reconhecida em 1996 que abrange 1 800 hectares de pomares. O solo calcário-argiloso, com o seu pH entre 7,0 e 8,5, e as 3 000 horas de sol anuais produzem laranjas doceiras com um índice de maturação superior a 10,5 — o dobro das variedades do norte da Europa.
Caminhar junto a um pomar em plena maturação é uma experiência táctil: o peso dos frutos verga os ramos até quase tocarem o chão, a casca brilha com uma cor laranja densa e saturada, e ao partir uma laranja com as mãos o sumo escorre pelos dedos com uma doçura que nada tem a ver com o sabor insípido dos supermercados. A Cooperativa Agrícola de Ferreiras, fundada em 1960, processa anualmente cerca de 25 000 toneladas de fruta, empregando 150 pessoas durante a época alta.
O quotidiano como cultura
Ferreiras não é uma freguesia de grandes monumentos ou de roteiros turísticos consolidados. A sua riqueza está no tecido do dia-a-dia, naquilo que se vive ao nível da rua. A Igreja Matriz de São Lourenço, construída em 1534 e reconstruída após o terramoto de 1755, mantém o retábulo-mor em talha dourada do século XVIII. Mas é no Mercado Municipal, inaugurado em 1952, que se encontra a verdadeira vida da freguesia: 23 bancas onde se vende tudo desde o pernil de porco preto aos figos-da-india, passando pelos ovos caseiros com casca cor de terra.
As manhãs têm o som metálico dos portões das oficinas a abrir — há ainda 18 serralharias e 12 carpintarias activas —, o arrastar de caixas no mercado, o cumprimento trocado entre dois homens de boné que se cruzam na mesma esquina há trinta anos. Ao fim da tarde, quando a luz rasante tinge as paredes de um tom âmbar carregado, há bancos de pedra ocupados junto à Rotunda das Cerejeiras, onde se instalou em 2018 a escultura "Tradição" do artista albufeirense Hélder Carvalho.
Dormir no interior do litoral
A oferta de alojamento concentra-se nas 43 unidades de alojamento local registadas na Câmara de Albufeira, predominantemente moradias unifamiliares construídas entre 1990 e 2010. Não se encontram aqui os grandes resorts nem as cadeias internacionais. O que existe são espaços de escala humana, muitos deles inseridos no casario tradicional, onde o hóspede acorda com o mesmo barulho das andorinhas que nidificam sob os beirais de abril a setembro.
A estrada nacional 395, que liga Ferreiras a Albufeira em 7,3 km, foi alargada para duas vias em cada sentido em 2018. Mas ainda assim, quem fica aqui pode escolher a estrada municipal 1280, a antiga via do comboio, e chegar à Praia dos Pescadores em 12 minutos sem passar por uma única rotunda.
O sumo nos dedos
Há uma imagem que fica de Ferreiras, e não é de praia nem de falésia. É a da laranjeira "Valência Late" plantada em 1958 no quintal da Casa do Povo, ainda hoje produzindo 600 frutos por ano. Quando os primeiros ventos de leste sopram em março, as pétalas brancas cobrem o chão como neve, e em maio os frutos verdes começam a ganhar a cor que lhes dará nome.
É esse o sabor que se leva de Ferreiras: não na boca, mas nas mãos que ainda hoje, como em 1963 quando a Cooperativa comprou as primeiras máquinas de seleção, escorrem sumo laranja sobre a terra vermelha de oxigénio que nenhum filtro de telemóvel consegue replicar.