Artigo completo sobre Giões: Onde o Algarve Interior Respira a Seco
Aldeia serrana de Alcoutim com 152 habitantes, xisto antigo e silêncio entre medronheiros
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O sol da tarreirada bate de chapa no xisto escuro das paredes. Os cães mudam de lado, à procura de sombra que não chega; as cadeiras de plástico, encostadas às portas, queimam quem se atreve a sentar-se. Giões fica a 258 metros, mas é a altitude no corpo que se sente: o ar seco que parte os lábios, o pó que se agarra à pele, o silêncio que soa alto quando a motorizada desliga. A costa fica a cinquenta quilómetros, mas poderia ser outro planeta — aqui não há sal no ar, só resina de sobreiro e cheiro a terra queimada.
Cento e cinquenta e duas pessoas, dizem os papéis. Na prática, são menos: há quem esteja registado mas viva em Lisboa, há quem cá durma só no fim-de-semana. Espalham-se por 7179 hectares de serra — duas almas por quilómetro quadrado, faz as contas quem quiser. O que isto quer dizer é que se pode caminhar meia hora na estrada de terra sem encontrar ninguém, só um javali a atravessar ou a vizinha no seu Fiat Panda antigo, que para para perguntar se vai ao café. Setenta e sete têm mais de sessenta e cinco; seis ainda não chegaram aos quinze. A escola fechou há anos, transformou-se em centro de dia. As crianças vão para Alcoutim ou para o estrangeiro.
Onde a serra encontra o rio
O Guadiana não se vê de todo o lado, mas está lá, como um vizinho que não se cruza mas se sente. Nas noites de inverno, quando o vento vira norte, traz o cheiro do rio e o som das buzinas das lanchas. A serra é outra coisa: medronheiros queimados pelo gelo de Março, sobreiros com as iniciais cortadas na casca, aroeiras que servem de mira para os caçadores. Não há buganvílias nem oleandros — aqui o que floresce é esteva e tojo, e só se for para alimentar as abelhas de Zé Luís, que ainda faz mel mas já não tem quem o ajude a carregar as colmeias.
Os dois alojamentos são casas de família que se renderam ao Airbnb: uma tem vista para a serra, outra para a estrada. Vêm pessoas da Alemanha, da Bélgica, às vezes do Porto. Ficam uma semana, passeiam de bicicleta, perguntam onde é a praia. A praia fica a uma hora, diz-se, mas eles não vão — ficam aqui, a descobrir o que é não haver nada para fazer. Às vezes ajudam nas azeitonas, se for altura. Às vezes só querem silêncio.
O sabor da serra
Não há restaurantes. Há o café, que é também mercearia, que é também bar, que é também correio. O António serve bicas e medidas, e se lhe pedires com jeito arranja um prato de presunto ou um ovo com farinheira. A comida é mesmo feita nas cozinhas: o Arlindo fumeira chouriças em Dezembro, a Amélia guarda tomate seco em garrafas de vidro, o Jorge faz vinho numa lagar que o pai comprou em 73. A vinha é em socalcos, quase escondida entre os olivais — umas vinhas de mesa, umas de vinho, todas para beber com os vizinhos no domingo. O vinho é tinto, forte, e deixa a boca a saber a terra.
À noite, as luzes acendem-se uma a uma, como se alguém as fosse ligando de propósito. O frio desce rápido; em Outubro já se vai buscar a lenha. A lareira é de oliveira, queima devagar e deixa um cheiro doce que se agarra à roupa. Lá fora, o céu é negro de verdade — não há candeeiros, não há estradas nacionais. As estrelas parecem tão perto que se sente vontade de as guardar no bolso. De vez em quando, ouve-se um tiro ao longe: caçadores ou batedores. Ou só o cão do Zé Manel, que ladra à lua.