Artigo completo sobre Martim Longo: castanhas, lendas e altitude algarvia
Freguesia serrana de Alcoutim onde a Festa da Castanha celebra tradições entre sobreiros e memórias
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O estalo seco das castanhas a rebentar na grelha espalha-se pela praça, misturando-se com o cheiro a fumo de lenha de azinheira. Outubro traz a Festa da Castanha a Martim Longo, e com ela o pretexto para descer à aldeia que se encolhe entre sobreiros, 261 metros acima do mar, tão longe da costa que parece pertencer a outro tempo. As mesas de madeira enchem-se de jeropiga caseira - não essa dos supermercados, mas a que o Joaquim faz na adeia dele - e de doces que ainda cheiram a manteiga fervida, enquanto os cantares ao desafio sobem entre as casas caiadas, umas encostadas às outras como se tivessem frio.
A lenda do homem alto
O nome vem de uma figura que o pessoal mais velho ainda fala como se tivesse existido de verdade - Martim Longo, tipo grandalhão que aqui pastava os gados e diziam que conseguia ver Espanha de pé no alto da serra. A povoação cresceu em torno da ermida de São João Baptista, mas quem é de cá sabe que o que marca mesmo é a fronteira lá em cima - os espanhóis que desciam para roubar gado, os contrabandos de café e açúcar que os nossos avós faziam de noite. Hoje são 928 habitantes, mas no dia-a-dia parecem menos - os jovens foram quase todos para França ou para o Alentejo, e quem fica são os que já não têm idade para arrancar.
Pedra, cal e talha dourada
A Igreja Matriz está onde sempre esteve - subes aquelas escadas de pedra escorregadias e entrando pelo portão já cheiras o incenso antigo. O padre António ainda lá está, com aquela voz que parece vir de dentro das paredes. A talha dourada está a descascar - falta dinheiro para a restaurar, mas as velhas dizem que assim é mais autêntico. O chafariz lá em baixo ainda tem água, fria como gelo, e no Verão os miúdos ainda lá vão beber porque sabe melhor que a da torneira. O Paço Episcopal está fechado há anos - as janelas partidas e o telhado a cair, mas ainda se vê onde estava o brasão.
Chanfana, migas e vinho de altitude
Na Tasca da Serra - que é só um balcão e três mesas - a Maria faz a chanfana como aprendeu com a mãe: bode do Zé Manel, vinho do ano passado, e aquele colorau que vem de Espanha porque o nosso é fraco. As migas são de pão de ontem, porque o de hoje ainda está muito fresco, e os espargos são aqueles que crescem à beira da estrada para o Pereiro. O vinho é de uma garrafa de plástico sem rótulo - vem da vinha do Seixal, 500 metros lá acima, e tem aquele gosto a terra que os estrangeiros acham estranho mas nós já não conseguimos viver sem.
Entre sobreiros e moinhos
O trilho dos moinhos começa mesmo atrás da igreja - são seis quilómetros que o pessoal faz domingo de manhã antes do almoço. Os moinhos estão todos em ruínas, mas ainda se vê a rodiz onde moía o trigo. O sobreiro grande - aquele que dizem ter 250 anos - tem o tronco oco, e quando éramos pequenos metíamoos lá dentro para fumar cigarros roubados aos pais. A serra cheira a esteva e a rosmaninho, e no Verão o silêncio só é partido pelas cigarras e pelo trator do Adelino que sobe às nove da manhã para ir ao pomar.
Janeiras, fado e vindima
O Cantar das Janeiras já não é o que era - agora são quatro velhos e um rapaz com acordeão, mas ainda vão porta a porta no dia de Reis. As velhas preparam os bolos de azeite dias antes, e é preciso ser rápido porque acabam logo. No Verão, o coreto tem músicos vindos de Lisboa que tocam fado para turistas, mas o que vale a pena é quando o Zé Cupertino pega na guitarra depois da missa e toca aquelas modas que só nós conhecemos. A vindima é em Setembro - umas quantas famílias ainda têm vinha, e ajudam-se umas às outras. O mosto prova-se logo ali no lagar, doce e quente, e quem leva uvas para casa é para fazer arrope que a mulher do médico de São Bartolomeu paga bem.
No Centro de Interpretação da Cortiça - que era a minha escola primária -, a D. Fernanda ensina os miúdos da cidade a fazer rolhas, mas eles só querem saber do telemóvel. Às seis da tarde, quando o sol se põe atrás da serra, a luz fica dourada e faz aquelas sombras compridas nas paredes de cal. A noite chega depressa, e com ela o céu estrelado que nos faz lembrar porque cá continuamos - apesar de tudo, apesar de todos. O vento traz o cheiro a terra queimada do dia anterior e o latido do cão do café, e Martim Longo fica ali, entre o que foi e o que vai sendo, agarrada à serra como quem se agarra a uma manta velha mas quente.