Artigo completo sobre Bordeira: onde o vento atlântico molda a paisagem
370 habitantes entre campos de batata-doce e praias selvagens no Parque Natural da Costa Vicentina
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O vento chega antes da vista. Carrega sal e iodo, sopra sempre, antes de ver o Atlântico. Na Bordeira, 19 metros acima do mar, a brisa não para — curva os arbustos, racha madeiras, deixa tudo com sabor salgado. Vivem aqui 370 pessoas em 8 000 hectares do Parque Natural do Sudoeste Alentejano: 4,6 habitantes por km². Traduzindo: quintais grandes, ruas vazias, silêncio que só o mar interrompe.
O que se faz com tanta luz
A luz é branca, seca, sem meios-tons. Ao meio-dia, as sombras são duras; à tarde, o dourado invade os campos de batata-doce, os muros de pedra, os cães à porta. A batata de Aljezur cresce bem no areal perto do mar — humidade constante, temperatura suave. Folhas verdes no chão, tubérculos doces debaixo. É produto IGP, está nos mercados de sábado e nas sopas da “Tia” Alice, na Estrada Nacional.
Do campo à praia
A freguesia começa no interior de pastagens e acaba na costa. Espalham-se 185 alojamentos — apartamentos, moradias, um hostel na Carrapateira —, a maioria ocupado por famílias e surfistas que fogem da confusão de Sagres. A Praia da Bordeira fica a 5 minutos de carro. Areal grande, dunas que mudam de sítio consoante o vento. A água é fria, mesmo em agosto. Leva fato se queres surfar mais de meia hora.
Nas despensas antigas ainda há garrafas de medronho da serra e mel escuro de Monchique. O peixe vem dos barcos de Vila do Bispo: safio, sargo, polvo. Pergunta no restaurante “O Sargo” o que veio hoje; não há carta, há o que o mar deu.
O barulho que não cala
Ao fim do dia, o vento não abranda. Leva o som das ondas até às janelas. Dos 370 residentes, 113 têm mais de 65 anos; lêem na ressaca a marcação da maré. Os 38 jovens aprenderam a dormir com esse ruído de fundo. Quando o mar não se vê, ouve-se. Quando não se ouve, sente-se no ar húmido que entra pela porta.