Artigo completo sobre Odeceixe: onde o rio Seixe encontra o Atlântico
Vila algarvia de herança árabe entre dois mundos, marcada por moinhos brancos e procissões fluviais
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O moinho de vento ergue-se branco contra o azul, as velas imóveis há décadas. João, que aqui nasceu em 1952, conta que ainda o viu girar quando era menino - o último moleiro, Sr. António, vinha de lá de cima do monte com o burro carregado de sacos. Agora as velas são só silhueta contra o céu, mas o cheiro a farinha parece ter-se agarrado às paredes de cal.
Wadi ash-Sheikh: onde o mapa mudou mas não o caminho
"Dizem que somos algarvios, mas ninguém nos diz a nós", ri-se Dona Lurdes no bar do largo. O nome árabe perdura nos papéis antigos da câmara - Wad as-Sayx - mas é no dia-a-dia que a fronteira se sente: quando o pão vem de São Teotónio porque é mais perto, quando o médico é de Aljezur mas o veterinário vem de Odemira. Em 1876 mudaram-nos de distrito por decreto, mas o rio Seixe não assinou nada: continua sendo o mesmo, correndo entre dois mundos que se tocam mas não se misturam.
A Igreja Matriz tem a porta lateral que range sempre no mesmo sítio - o sacristão nunca se lembra de a oleado. Por dentro, o cheiro a cera queimada mistura-se com o húmido da pedra. O retábulo dourado foi restaurado há vinte anos, mas faltou dinheiro para os azulejos da Capela de Santo António onde as figuras se vão apagando, pedaço a pedaço, como memórias que ninguém pede para contar.
Quando a santa vai de barco
No primeiro domingo de Setembro, confusão. A procissão começa às nove da manhã, mas desde as seis que as mulheres andam de casa em casa com tachos de caldeirada a esquentar. Às margens do Seixe, os barcos de pesca estão enfeitados com papel de seda - os homens discutem quem vai levar a imagem este ano, porque o motor do Joaquim está a falhar e o Zé Manel tem o barco maior mas bebe demais. Quando Nossa Senhora da Graça desce as escadas de madeira para o cais, há sempre alguém que se lembra da avó a dizer que choveria se as velas da procissão tremessem.
O que se come (e bebe) quando ninguém está a ver
No restaurante que não tem nome - só diz "Marisqueira" na porta - Dona Fernanda serve o arroz de lingueirão antes das doze porque os mariscos são da madrugada. "Os turistas querem fotografias, nós queremos é comer", mastiga enquanto lambe o dedo do caldo. A batata-doce vem da horta do filho, enterrada na cinza do forno durante a noite - quando se abre a porta, o cheiro adocicado invade a rua toda. O medronho é do vizinho, engarrafado em garrafas de água mineral, e ninguém fala nas licenças que faltam.
Onde o rio faz a praia
Às sete da manhã, a praia ainda é nossa. Os pescadores recolhem o último cerco, as gaivotas discutem os restos, e o rio, baixinho, conta segredos à areia. Só depois das nove é que começam a descer os surfistas de Lisboa com as pranchas no tejadilho do carro - mas nós já sabemos como são as ondas hoje, bastou ouvir o barulho do mar durante a noite. No miradouro do fim do mundo (chamamos-lhe assim porque dá para ver tudo), o Sr. Adriano fuma o seu cigarro de palha. "Vieram cá os alemães há anos, disseram que isto era um paraíso. Paraíso é onde se pode estar quieto", espreme a beata na pedra de forma metódica.
Dona Amélia ainda vai à fonte das Catas, apesar de haver água canalizada. Diz que a água da serra faz melhor pão - e quem prova o dela, sabe que é verdade. No largo, quando o sol se põe e o moinho se torna apenas uma sombra contra o lusco-fusco, o campainho da igreja toca três vezes. Não é para rezar, é para lembrar que são oito horas e que, lá em baixo, o rio continua a levar pedras e segredos para o mar.