Artigo completo sobre Ferragudo: cal branca, rio Arade e memória de ferro
Vila de pescadores na foz do Arade, entre fortaleza seiscentista e casario tradicional algarvio
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O branco da cal bate forte ao meio-dia. As casas devolvem o sol com uma intensidade que se sente na pele, enquanto o Arade se estende ali mesmo, a dois passos das portas pintadas de amarelo e azul. Ferragudo vive do rio. Sempre viveu. Os 540 hectares da freguesia ocupam a margem direita da foz, onde a água salgada encontra a corrente do interior e tudo se resolve em marés e barcas ancoradas.
O nome vem do latim ferrum — ferro. Não há sítio onde ver esse ferro, mas a palavra fica na boca como coisa pesada, contrastando com a leveza do lugar. Ferragudo foi vila no século XVI, cresceu virada para a pesca e para os barcos que entravam e saíam carregados. Hoje, os 1973 habitantes dividem-se entre os que cá nasceram e os que chegaram. Entre os 644 idosos e os 177 jovens há uma distância que se sente nas ruas: as manhãs pertencem aos mais velhos, as tardes aos turistas que ocupam os 376 alojamentos espalhados pela freguesia.
O Arade e a pedra
A densidade populacional — 364,7 habitantes por km² — não se traduz em confusão. Ferragudo espalra-se sem pressa, subindo os 34 metros de elevação média entre o rio e o interior. O casário mantém a mesma geometria: portas estreitas, janelas pequenas, telhados de quatro águas onde os pássaros pousam ao fim da tarde.
O património classificado soma seis monumentos, cinco deles Imóvel de Interesse Público. A Fortaleza de São João do Arade, na ponta que vigia a barra, foi erguida no século XVII para proteger a entrada do rio. A pedra escura, batida pelo sal e pelo vento, guarda a forma severa da arquitectura militar. Dali vê-se Portimão na margem oposta, a praia Grande a ocidente, e o mar aberto.
Citrinos e sal
A gastronomia de Ferragudo não se anuncia em tabuletas. Está nas tascas onde os locais almoçam peixe grelhado sem cerimónia, na sardinha assada que deixa no ar um rasto de fumo e gordura, no cheiro a coentros que sai das cozinhas ao meio-dia. Os Citrinos do Algarve, com protecção da Indicação Geográfica Protegida, crescem nos pomares do interior, onde a terra argilosa e o sol fazem a laranja rebentar em sumo. É comum cruzar na estrada carrinhas carregadas de caixas, a casca ainda com orvalho da manhã.
O rio dita o compasso. Quando a maré enche, a água sobe e cobre os bancos de areia onde as gaivotas pousam. Quando vaza, deixa à vista o leito lodoso, brilhante, cheio de pegadas de aves. Há quem passe horas na margem, sentado num muro baixo, apenas a ver a corrente.
Ao cair da tarde, o sol poente incendeia a fachada da igreja matriz e as águas do Arade tornam-se espelho de cobre. O vento abranda. Fica só o murmúrio da maré, o tilintar distante de um sino, o ranger de uma amarra. Ferragudo não pede nada. Oferece-se assim — cal, sal e rio.