Artigo completo sobre Loulé São Clemente: mercado centenário e castelo mouro
Descubra Loulé São Clemente em Loulé, Faro: mercado municipal histórico, castelo mouro, gastronomia serrana e arquitetura revivalista no coração algarvio.
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O som chega antes da imagem. Um murmúrio metálico, quase rítmico, sobe das bancadas do Mercado Municipal — o ranger das balanças de latão, o estalar de facas sobre tábuas de madeira escurecida pelo uso, vozes que negoceiam em sotaque cerrado, arrastando as vogais como quem não tem pressa de as largar. A luz da manhã entra pelas portas de ferro forjado e desenha rectângulos dourados no chão de pedra. Ao sábado, o mercado enche-se de figos secos ainda macios do sol, queijo fresco que se derrete na boca, ramos de coentros a pingar água, frascos de mel que cheiram a tomilho e garrafas de aguardente de medronho que ardem como a serra.
Três torres e sete séculos de cal
Loulé vive a 233 metros de altitude média, suficientemente alta para que o ar tenha uma secura diferente da brisa costeira que se sente em Quarteira. A vila deve o seu nome, com toda a probabilidade, ao árabe al-Awlyâ — "os santos" —, vestígio de uma ocupação muçulmana que durou de 715 a 1249. Do Castelo de Loulé, de origem moura, restam hoje apenas três torres seculares. Quem sobe os degraus gastos até ao topo encontra uma vista de 360 graus: telhados de terracota encaixados uns nos outros como peças de um puzzle irregular, a mancha verde-escura dos sobreiros na serra ao norte, e, para sul, uma nesga de azul que sugere o mar sem o confirmar. É o único castelo do Algarve com acesso subterrâneo às termas romanas — um corredor húmido e fresco, mesmo nos dias em que o termómetro exterior ultrapassa os trinta graus, onde o silêncio tem a espessura da pedra que o envolve.
A porta manuelina e o chão que range
O centro histórico organiza-se em ruas estreitas, algumas delas tão apertadas que dois corpos lado a lado quase tocam as paredes caiadas. A Igreja Matriz de São Clemente, construída no século XIII e reformada no XVI, exibe um estilo gótico-manuelino que se revela nos arcos ogivais e nos capitéis trabalhados — foi aqui que o pintor algarvio José Francisco da Cruz, no século XIX, deixou obra. Mais abaixo, o Convento de Nossa Senhora da Assunção, também conhecido como Convento de São Francisco, fundado no século XVI, alberga o Museu Municipal de Loulé. A sua porta manuelina é considerada uma das mais notáveis do Algarve: a pedra, lavrada com cordas torcidas e motivos vegetalistas, conserva uma tonalidade de mel escuro que contrasta com a cal branca das paredes adjacentes. No interior do museu, o chão de madeira range sob os passos, e as salas cheiram a cera e a tempo acumulado.
Corso, confetti e resistência
Falar de Loulé sem falar do Carnaval é como descrever a serra sem mencionar os sobreiros. Iniciado em 1906, é o mais antigo de Portugal continental — e carrega uma história de resistência: entre 1937 e 1946, durante a ditadura de Salazar, o corso foi suspenso. Quando regressou, fê-lo com a energia acumulada de quase uma década de silêncio. Em Fevereiro, as ruas que durante o resto do ano ecoam apenas com os passos dos 17.930 habitantes da freguesia transformam-se num rio de cor, papel machê e música amplificada. Mas há outras celebrações que definem o calendário: as festas de São Clemente, a 23 de Novembro, com procissão e arraial; a Procissão do Senhor dos Passos na Semana Santa; e a Festa da Mãe Soberana, uma das maiores romarias do Algarve, que atrai milhares de peregrinos num fervor colectivo que se ouve antes de se ver.
Serra, sobreiros e cataplana de cobre
A norte da vila, a Serra de Loulé ergue-se até aos 400 metros, coberta de vegetação mediterrânica — sobreiros de tronco descortiçado, expondo o vermelho vivo da madeira nua, e medronheiros carregados de frutos que amadurecem entre o amarelo e o escarlate. O Trilho da Fonte Benémola permite percorrer este território a pé, entre o murmúrio da água do Ribeiro de Quarteira e o canto intermitente das aves. Para sul, a paisagem muda radicalmente: a freguesia integra o Parque Natural da Ria Formosa, com as suas lagunas, ilhas barreira e habitats de aves migratórias. Entre estes dois mundos — serra e ria — estendem-se pomares de laranjeiras e olivais que alimentam lagares tradicionais, responsáveis por um azeite reconhecido pela sua qualidade.
É nesta encruzilhada geográfica que a gastronomia ganha sentido. A cataplana de marisco, preparada no recipiente de cobre que se fecha como uma concha, é um exercício de vapor e paciência. O arroz de lingueirão traz o iodo da costa para a mesa. Nos doces, o Dom Rodrigo — fios de ovos envolvidos em açúcar e amêndoa, embrulhados em papel de prata colorido — e os morgadinhos de amêndoa traduzem em textura o que a amendoeira em flor traduz em paisagem. A açorda algarvia e o xarém completam um repertório onde o trigo, os coentros e o alho são a santíssima trindade de sabor.
O âncora na pedra
Ao fim da tarde, quando a luz rasante de Faro tinges as muralhas do castelo de um tom alaranjado quase ferrugíneo, a vila recolhe-se. As lojas tradicionais do centro histórico baixam as portadas metálicas com um ruído seco. Na praça, a estátua de São Clemente segura a sua âncora — símbolo do martírio do padroeiro — e a sombra que projecta alonga-se sobre a calçada até quase tocar a fachada do mercado. É esse o último som do dia em Loulé: não o sino da igreja, não o trânsito, mas o vento que desce da serra, passa entre as três torres do castelo e leva consigo o cheiro a cortiça, a terra quente e a amêndoa torrada.