Artigo completo sobre Querença: Altitude e Silêncio no Barrocal Algarvio
A 368 metros de altitude, a freguesia de Loulé vive entre xisto, cal e amendoeiras no interior
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O vento sobe a Querença como quem sobe a escada de um prédio sem elevador: devagar, respirando fundo, e ainda assim chega limpo aos 368 m onde a aldeia se agarra a 33 km² de barrocal. Não há maresia — há antes o cheiro a terra que se parte com a enxada e o silêncio que só se interrompe quando a igreja dá as horas ou quando o café A Pedra abre a porta ao atrito das dobradiças.
Entre o litoral e a montanha
Querença é de Loulé, mas na prática fica a meio caminho: a 20 minutos das praias e a 20 da serra. Quem vem do mar sente o ar mais seco; quem desce da Serra do Caldeirão nota que o frio já não corta. No meio, há um patamar de amendoeira e carobras que sobrevivem a meses sem chuva. A estrada nacional corta a freguesia ao meio, mas ninguém a atravessa sem olhar para os dois lados — não por causa do trânsito, que é pouco, mas porque o corpo aqui guarda memória de machada.
No centro, a praça de terra batida serve de sala. A igreja não é grande coisa — aquele estilo algarvio que parece sempre um pouco desmaiado — mas é o ponto de orientação: se o campanário está ao teu lado direito, a mercearia fica em frente e a fonte onde beber água sem pagar é a seguir ao banco de madeira onde o tempo se senta.
Um território de baixa densidade
Censo 2021 diz 400 e tal habitantes, mas isso conta quem tem morada fiscal. Ao fim-de-semana aparecem filhos e netos que vivem em Lisboa ou em Paris e não se registam. Há nove casas de férias legais; as outras são arrendadas por palavra, muitas vezes a amigos de amigos. Não há hotéis, não há resorts, não há sequi fatura para turista — há antes um quarto livre na casa da avó, lençóis cheirados a sabão em barra e a promessa de silêncio total depois das 23 h.
A vinha existe, mas é símbolo: uns parreirais agarrados a muros de xisto que produzem uvas de mesa para o vizinho fazer aguardente. Vinho com denominação há na costa; aqui o que se bebe é o que o Zé Manel engarrafou no ano passado e que se abre só depois de saber quem está à mesa.
Ritmo próprio
O dia começa quando o Sol toca na parede lateral da pastelaria — hora de abrir, hora de levantar a persiana, hora de o pão quente cheirar a rua. Quem não tem horta, compra; quem tem, troca: tomates por ovos, figos por vinho, conversa por conversa. O que não falta é tempo para explicar como se fazem os enchidos ou onde se esconde o melhor medronho: basta sentar-se no café e esperar que alguém pergunte.
Comer fora é um exercício de paciência: há um restaurante (o Fonte de Sede), abre quando quer e serve o que há — cabrito ou javali, conforme a caça e a vontade do dia. O resto é tasca de aldeia: porta aberta, televisão no canto, preço que se pergunta na hora de pagar. Leva dinheiro, porque multibanco é coisa que fica a 7 km, em Salir.
Ao entardecer, o xisto devolve o calor que apanhou. A luz fica dourada, quase pesada, e faz sentido perceber porque é que tanta gente vem cá parar “só para pensar”. Não há miradouro assinalado, não há selfie point; há antes um muro baixo onde se pode pôr os pés e ver o barrocal a ondular até ao horizonte. Fica a dica: leva um casaco — o vento da noite não perdoa quem vem de carro com ar condicionado.