Artigo completo sobre Fuseta: onde a Ria Formosa dita o ritmo da vila
Entre traineiras e laranjais, a vida pesqueira da Fuseta desenrola-se junto ao Parque Natural
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O sol ainda não aqueceu a areia quando as primeiras traineiras regressam. Ouve-se o ranger das cordas, o bater surdo das caixas de esferovite contra o cais, o grito de uma gaivota que mergulha em riste. A Fuseta acorda com o mar — sempre acordou assim. Aqui, a 1,7 metros acima do nível das águas, a vila respira ao ritmo da maré, encostada ao Parque Natural da Ria Formosa como quem se recosta a uma certeza antiga.
A povoação estende-se horizontal, compacta nos seus 150,9 hectares, casas brancas alinhadas em ruas estreitas onde o vento do sueste entra sem pedir licença. Não há monumentos classificados que atraiam autocarros de turismo, não há castelos nem palácios. O que existe é a luminosidade crua do Algarve oriental, aquela luz que não perdoa imperfeições mas que devolve ao branco das paredes uma intensidade quase dolorosa ao meio-dia.
Sal, Ria e Ilha
A Ria Formosa desenha aqui um dos seus braços mais sinuosos. Do cais, embarcações atravessam o canal — cinco minutos de água calma, reflexos verdes e castanhos da vegetação submersa, gaivotas que planam sem bater as asas. Do outro lado, a Ilha da Fuseta estende-se em quilómetros de areal fino, dunas baixas fixadas por cactos e mato rasteiro. A água é transparente, de um verde-azul que muda conforme a profundidade e a hora. Ao fim da tarde, quando o sol desce sobre a ria, a superfície torna-se espelho — céu e água fundem-se numa linha imprecisa, dourada.
Nos 4633 habitantes que aqui vivem permanentemente, reconhece-se ainda a marca da pesca. Há homens que consertam redes junto ao porto, dedos ágeis que tecem o nylon com gestos automáticos. Mulheres que vendem chocos e lingueirões nas bancas do mercado, mãos cheirando a maresia. Os 1412 idosos da freguesia guardam memórias de quando a conserva dava trabalho a centenas de pessoas, quando o atum chegava em cardumes densos e a vila fervilhava no Verão.
Citrinos e Mesa
Mais para o interior, para lá das últimas casas, os laranjais dos Citrinos do Algarve IGP estendem-se em rectângulos verdes. O aroma é subtil durante a maior parte do ano, mas na Primavera, quando as laranjeiras florescem, o ar fica denso, adocicado, quase tonto. A gastronomia da Fuseta não precisa de floreados: arroz de lingueirão, caldeirada de peixe da ria, amêijoas à bulhão pato. Pratos que dependem da frescura absoluta da matéria-prima, temperados apenas com coentros, alho, azeite. Nas tascas junto ao porto, as ementas manuscritas mudam conforme o que os barcos trouxeram nessa manhã.
Ritmo de Maré
Os 227 alojamentos turísticos — apartamentos, moradias, quartos — acolhem sobretudo famílias que procuram praias sem confusão, águas abrigadas onde as crianças chapinham em segurança. A densidade populacional de 131,2 habitantes por quilómetro quadrado nunca se sente como aperto — a vila respira, há espaço entre as casas, pátios interiores onde cresce a buganvília roxa contra a cal.
Ao anoitecer, quando as últimas banhistas regressam da ilha e os barcos se amarram definitivamente, a Fuseta baixa o volume. Fica o murmúrio da água contra os pilares do cais, o tinir ocasional de uma draga, o farfalhar das canas na margem. A brisa traz cheiro a sal e a lodo — não o lodo fétido dos pântanos, mas aquele cheiro fértil, mineral, da ria que alimenta. Uma garça levanta voo da margem oposta, silhueta branca que se dissolve na penumbra azulada. Amanhã, o sol voltará a queimar a mesma cal, as traineiras voltarão a ranger, a maré voltará a subir. Aqui, a repetição não cansa — ancora.