Artigo completo sobre Alcantarilha: luz crua entre a serra e o mar
Conheça Alcantarilha, freguesia de Silves com 2498 habitantes, entre campos de sequeiro e o Atlântico. Território de transição no Algarve autêntico.
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O calcário queimado devolve a luz ao céu como se a terra ardesse debaixo dos pés. Alcantarilha não se «ergue»: espalma-se pela planície, a um palmo de altitude, com a manha de quem se deitou ao lado do mar e esqueceu-se de fechar a janela. A brisa não «sopra»; entra-lhe pela goela dentro, leva o pó da pista e o cheiro de algas que não estão cá, mas vêm na roupa dos que trabalham na Armação de Pêra. São dois mil, quatrocentos e noventa e oito, mas conta-se gente de corpo inteiro: contam-se as falhas nos dentes da D. Lourdes, o filho do Zé na Suécia, o neto que ainda não nasceu.
Território de transição
Pertence a Silves, mas o GPS engana-se às vezes e diz que estamos em Lagoa. O campo mede-se em tempos de caminhada: vinte minutos até à fonte da Nora, meia hora até ao campo de futebol onde o relvado é areia compactada. As alfarrobeiras crescem onde o tractor já não passa; dão fruto que ninguém colhe, a não ser os cães e os miúdos de férias que os pais deixam com os avós. Os muros de pedra estão caindo, pedra a pedra, ano após ano, como se a terra decidisse devolver o que lhe foi roubado.
Há 91 licenças de alojamento local, mas são números da Câmara. Na prática, são apartamentos que pertencem a gente de fora e que ficam escuros entre outubro e abril. O resto do ano ouvem-se as rodas das malas nos paralelos e o cheiro do protector solar a entrar pela janela da padaria.
A marca da abelha
O mel não é daqui, mas o Zé Baptista vende-o na feira de sábado em Pêra. Trouxe-o de Marmelete, numa carrinha sem travões de mão, e diz que é de urze, mas quem conhece sabe que é de flor de laranjeira cortado com medronho. O cliente não percebe e leva dois frascos para lembrança. A região vinícola passa longe: há umas vinhas abandonadas atrás do cemitério, onde os cachos servem para fazer aguardente de merda que o velho Manel guarda para os funerais.
Luz e silêncio
O monumento é a Igreja Matriz. Ninguém lhe diz «Imóvel de Interesse Público»; diz-se «a igreja com os ossos». Dentro do ossário, as caveiras empilham-se desde que o túmulo caiu na peste de 32. As crianças mexem nos olhos vazios, os pais puxam-nos pela mão, ninguém explica nada. O sino toca às horas e meia, mas às vezes falha porque o cordão está gasto e o sacristão está bêbedo. O silêncio é este: o intervalo entre as badaladas, o ranger da porta de ferro que fecha às sete, o cão do adro a ladrar para a sombra dele próprio.
Ao cair do dia, o calcário ainda manda calor para cima, faz tremer o ar sobre o telhado. O cheiro a pão queimado vem da casa da D. Odete, que continua a fazer massa em cima da mesa de formica. As crianças já não brincam às escondidas; estão dentro a ver TikTok. A noite cheira a figo em calda e a gasóleo do gerador do café, que falha sempre que o São Martinho sopra forte. Alcantarilha não é lugar de nada: é onde a estrada faz uma curva, onde o tempo se enrola no cheiro a borra de café e onde o mar, lá longe, continua a bater sem que ninguém lhe peça conta.