Artigo completo sobre Algoz: Onde o Comboio Marca o Ritmo do Algarve Interior
Estação ferroviária centenária ancora freguesia de transição entre litoral e serra algarvia
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O comboio apita antes de parar na estação de Algoz. É o mesmo som desde 1900, quando a linha chegou. A estação tem três elementos: um caixilho de madeira pintado de azul, um relógio parado às 14h37, e um café onde servem bica por 0,65€. Aqui não há turistas a tirar selfies — há dois homens a jogar sueca e um carteiro a entregar encomendas.
A linha divide a freguesia em duas partes. Lado nascente: ruas com nomes de antigos proprietários, casas térreas com portas de madeira que rangem, quintais onde ainda se cria galinhas. Lado poente: o centro comercial com Pingo Doce, a rotunda com o parque infantil, e o estádio do Algoz onde o clube disputa o distrital. A 61 metros de altitude, o Arade fica a 8 km. A praia mais próxima, a 18.
No centro histórico, que ocupa três ruas, há um monumento classificado: a antiga escola primária de 1923, agora vazia. As paredes exteriores mantêm as tábuas de ardósia onde se aprendia a escrever. À porta, uma placa indica que aqui estudou José Dias, primeiro engenheiro civil de Algoz. É o único nome que a freguesia celebra com letra dourada.
O comércio resume-se ao essencial: Minipreço, dois cafés, uma farmácia, um talho onde se vende porco preto de Monchique, e a padaria Dona Amélia que abre às 6h e esgota os bolos de massa podre antes das 10h. O mercado mensal acontece no primeiro sábado — três bancas de legumes, duas de peixe, uma de tecidos. É aqui que se compra o mel de Rosário, produtor local que colhe nas serras vizinhas. Não tem selo DOP, mas tem lista de espera.
Para comer: O Tasco do Zé serve xerém com conquilhas à sexta-feira, estufado de javali à quinta-feira. Não há menu — pergunta-se ao empregado o que há. Servem até acabar. A francesinha custa 7€, inclui bebida e sobremesa caseira. Abre às 12h30, fecha quando o último cliente sai.
Para dormir: há 57 alojamentos, mas apenas três têm licença para curta-duração. O resto são arrendamentos anuais a trabalhadores do turismo de Armação de Pêra que preferem pagar 400€/mês aqui a 800€ na costa. O único espaço para visitantes é o Algoz Village: 12 apartamentos com piscina, construídos em 2018, ocupação média de 34%.
O autocarro 52 da Vamus liga Algoz a Silves (20 min) e a Albufeira (35 min). Passa de hora em hora, menos ao domingo — aí, de duas em duas. A estação de comboio tem quatro comboios por dia para Faro (45 min) e duas ligações diretas a Lisboa (3h15). Quem não tem carro organiza-se por estas duas linhas. Quem tem, estaciona onde quer — a exceção é segunda-feira de manhã, dia de mercado.
Às 17h30, o comboio das 17h32 atravessa a freguesia. As cancelas fecham durante 42 segundos. É o momento de maior movimento do dia: duas viaturas param, três peões esperam, uma criança acena ao maquinista. Depois, tudo volta ao mesmo. O silêncio não é paisagem sonora cultivada — é ausência de trânsito.