Artigo completo sobre Cabanas de Tavira: saveiros, sal e forte virado ao mar
Aldeia piscatória na Ria Formosa onde barcos atravessam para sete quilómetros de praia deserta
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O barco vira à esquerda no canal, motor a diesel abafado pelo grito das gaivotas, e cinco minutos depois a proa encosta ao cais de madeira da ilha. A tábua range. O saveiro balança. Do outro lado da Ria, Cabanas de Tavira mantém-se quieta sob a luz branca de meio da tarde — casas baixas, platibandas de madeira pintadas de azul-celeste, o passadiço suspenso sobre o sapal como uma espinha dorsal de ripas claras. A água lambe a margem sem pressa. Cheira a sal grosso, a lodo exposto pela maré vazia, a peixe fresco acabado de retirar da rede.
Este foi sempre um lugar de quem vive do mar. No século XVI, pescadores ergueram cabanas de junco e madeira para guardar redes e abrigar barcos — daí o nome que ficou, literal, sem volta. Pescavam atum e sargo, salgavam peixe, colhiam sal nas marinhas que ainda hoje desenham rectângulos brancos junto ao horizonte. Em 1670, quando os corsários começaram a forçar a barra, a Coroa mandou erguer o Forte de São João em forma de estrela. Dois anos bastaram para levantar os baluartes de pedra calcária extraída no local, cal cozida em fornos de sapal, canhões apontados ao canal. Hoje, o forte acolhe hóspedes em vez de soldados. Do deck panorâmico vê-se a barra aberta, o Atlântico para lá da ilha, e em dias de sorte os golfinhos que entram a saltar na maré cheia.
A travessia que nunca demora
Não há ponte. Nunca houve. Para chegar à Praia de Cabanas — sete quilómetros de areia fina, bandeira azul contínua desde 1989 — embarca-se num dos saveiros de pesca adaptados com bancos de madeira. A travessia dura cinco minutos. O barqueiro conhece o canal de cor, sabe onde a água baixa até deixar bancos de areia à vista e onde os lingueirões se enterram em colónias densas. Na ilha, um passadiço de tábuas claras serpenteia entre dunas baixas cobertas de esteva e tamargueira. Ao longe, para nascente, as dunas fossilizadas erguem-se como ruínas naturais, cimento de conchas e areia compactadas há milénios. O areal está quase vazio. A água tem dezoito graus e meio — a mais quente de Portugal continental — e é transparente como vidro fino.
Quem regressa ao cais ao fim da tarde encontra o mercado de artesanato montado aos sábados: cerâmica pintada à mão, redes de pesca em miniatura, conchas polidas. A Avenida Ria Formosa corre paralela ao canal, ladeada por restaurantes de fachadas simples onde se serve caldeirada de peixe da Ria — cherne, robalo, safio, tomate maduro, coentros cortados à faca, pimentão vermelho em tiras finas. No prato ao lado, conquilhas ao natural fumegam com limão espremido e pimenta moída na hora. A massa de peixe, prato antigo dos pescadores, ainda se faz com aparas de cherne desfiado, batata, ovo e salsa. Nos dias de festa, a cataplana de amêijoas leva fatias de chouriço que soltam gordura alaranjada sobre as conchas abertas.
Onde o sapal respira
O Parque Natural da Ria Formosa começa ali, na margem. Zona Ramsar desde 1987, acolhe duzentas espécies de aves: flamingos-comuns que filtram a água lodosa, colhereiros de bico achatado, avocetas de pernas azuis, andorinhas-do-mar que mergulham em queda vertical. O passadiço de 1,2 quilómetros, construído em 2010, permite caminhar sobre o sapal sem o pisar. Ao pôr do sol, a luz rasante dá cor de cobre aos canais de maré. Ouve-se o silvo agudo da avoceta, o bater de asas dos patos-reais a levantar voo, o barulho surdo das conquilhas arrastadas pela corrente em dias de maré viva — som que os pescadores reconhecem de olhos fechados.
Nos muros de pedra seca e nos matorrais de acácia vive o camaleão-africano, espécie ameaçada que resiste aqui em pequenas colónias. De kayak, percorrem-se os creeks da ilha ao ritmo lento da maré, passando por bancos de ostras selvagens e cardumes de cavalos-marinhos-do-hipocampo — a maior concentração da Europa. A água reflecte o céu sem mancha. O remo entra sem som.
A 15 de Agosto, a imagem de Nossa Senhora do Mar sai em procissão marítima. O barco ornamentado avança pelo canal enquanto os saveiros o acompanham em fila, motores desligados, remos na água. Chega ao cais e a multidão abre-se. Depois há missa campal, sardinhada na marginal, fumo de carvão subindo direito no ar parado da tarde. Ao cair da noite, o cheiro a peixe grelhado mistura-se com o da aguardente de medronho servida em copos pequenos, destilada na serra calma que fica para norte, longe do mar mas sempre presente na mesa.