Artigo completo sobre Cachopo: onde o xisto e o silêncio moldam a serra
Antas milenares, casas redondas e fornos comunitários na Serra do Caldeirão algarvia
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O granito da eira ainda queima os pés quando o vento sobe da Ribeira da Foupana, trazendo o cheiro a medronho maduro e a terra que racha. A quatrocentos metros de altitude, o xisto escuro corta a terra entre sobreiros que já viam os meus avós colherer acornes. Cachopo não se anuncia — revela-se devagar, como quem tem pressa de viver. Casa a casa, monte a monte, onde 471 almas ocupam mais de duzentos quilómetros de serra e vale, mas onde o silêncio é tão grande que se ouve o melro a saltitar.
Pedra que conta milénios
A Anta da Masmorra fica ao lado do caminho que vai para o Pargo — não precisa de placa, basta saber que é ali, onde o carvalho grosso faz a curva. As pedras estão quentes ao toque, mesmo à sombra, e quem deita a orelha ao chão ainda escuta os mortos a mexerem-se. Quando em 1535 as "Visitações da Ordem de Santiago" mencionam Cachopo, já a Igreja de Santo Estêvão tinha telhado — hoje em dia, a cal branca é nova, mas as paredes são as mesmas que viram os meus bisavós casarem.
Nos montes, as casas redondas ainda aguentam. A do Tonio, na Canada da Serra, tem a porta tão baixa que até às crianças têm de se curvar. Os palheiros cheiram a centeio antigo, e nos fornos comunitários de Janeiro ainda se faz o pão de levainha — três dias de fermentação, quatro horas de forno, a lenha da azinheira que faz uma brasa que não queima mas coze devagar.
Pão, mel e aguardente
Quando o vento vira a Norte, cheira-se o pão a queimar antes de se ver a fumacinha. A Festa do Pão é em Outubro, mas quem quer pão verdadeiro vai à padaria do Ze Manel na sexta-feira ao amanhecer — ainda quente, com a côdea que parte como vidro e o miolo que fica peganhento ao dedo. O mel do Joaquim é de rosmaninho, mas o mel mesmo bom é de medronho — aquele que fica branco e granulado, que se come à colher. A aguardente arde na garganta mas é no peito que aquece, especialmente quando o Norte sopra e a neve se agarra ao Cerro do Malhanito.
Trilhos entre montes
A Via Algarviana cruza Cachopo, mas os trilhos bons são os que só o pessoal conhece: o que desce à Foupana pelas sobreiras do Pargo, onde os javalis fazem as valas; o que sobe ao Malhanito pela face Norte, onde o xisto escorre debaixo dos pés como lâminas. Do topo, quando o céu está limpo, vê-se a crista branca do mar — parece tão perto que se podia saltar lá de cima.
A Ribeira de Odeleite tem um poço onde as mulheres lavavam a roupa — ainda se vê o sabão incrustado nas pedras. Agora é onde os miúdos se atiram de cabeça nos dias de calor, enquanto as mães gritam que a água é fria que dói.
Em Julho, quando a lua está cheia, o pessoal junta-se no Largo da Igreja. Trazem-se cadeiras de casa, os velhos poem-se à sombra do cipreste, e o fadista que vem de Lisboa canta até as guitarras estarem mornas de tanto tocar. Mas é na terça-feira de manhã, quando o sol bate na parede caiada da casa da Dona Ilda e o vento traz o cheiro a esteva a queimar, que Cachopo mostra o que é — um sítio onde o tempo não passa, só se acumula, como o xisto que se empilha ano após ano, como as histórias que se contam de porta a porta, como o silêncio que fica depois do sino tocar e ninguém se mexe.