Artigo completo sobre Santa Catarina da Fonte do Bispo: água benta e alecrim
Freguesia do Barrocal algarvio onde uma fonte milagrosa dita o ritmo de vida desde o século XVI
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O cheiro a lenha e alecrim chega antes da aldeia. A estrada sobe em curvas suaves entre olivais retorcidos e sobreiros de casca áspera, e quando o povoado aparece — um punhado de casas brancas com platibandas amarelas e azuis —, o silêncio é quase físico. Apenas o vento nas estevas e o eco distante de um sino marcam o ritmo desta freguesia do Barrocal algarvio, onde 1873 habitantes se distribuem por quase 118 quilómetros quadrados de colinas baixas e ribeiras sazonais. Santa Catarina da Fonte do Bispo mantém-se fiel ao seu nome: uma aldeia nascida em redor de uma fonte milagrosa, descoberta ou benzida por um bispo no século XVI, e que ainda hoje atrai peregrinos em busca de cura para doenças oculares.
A água que dá nome ao lugar
A Fonte de Santa Catarina continua a manar, escondida num recanto de pedra calcária coberto de musgo. Localmente, chamam-lhe "água de olhos", e no dia 25 de novembro a procissão desce até ali em fila indiana, cumprindo promessas centenárias. A crença atravessou gerações: quem lava os olhos nesta água, dizem, recupera a visão turva. A fonte alimentou o núcleo original da freguesia, um povoado rural que se manteve isolado até aos anos 1960, quando finalmente chegou a eletricidade. Até lá, a vida decorria ao ritmo das colheitas e das destilações clandestinas de medronho — hoje legalizadas, com alambiques registados que ainda fumegam no Outono.
Entre o montado e a Igreja Matriz
No centro da aldeia, a Igreja Matriz de Santa Catarina ergue-se em traça simples, cal branca e cantaria nua. Não há azulejos historiados nem talha dourada — apenas o essencial para a devoção de uma comunidade que sempre viveu da terra. Em redor, as casas tradicionais exibem platibandas pintadas em tons pastel, portas baixas de madeira gretada pelo sol, e quintais onde crescem laranjeiras e figueiras. A Capela de Nossa Senhora da Saúde fica mais afastada, num caminho de terra batida que atravessa um montado de azinheiras. O território é todo ele ondulado, pontuado por barragens pequenas que espelham o céu e por muros de pedra seca que delimitam antigos currais.
Cozinha de quintal e fogão de lenha
Na única tasca da aldeia — o Café Central, sem placa na porta mas conhecido por todos como "o do Zé" —, serve-se sopa de hortelã com escargos às terças e quintas, e xarém fumegante aos sábados. O xarém aqui não é guarnição: é prato central, papa de milho grosso com toucinho e farinheira cortada em rodelas, servido numa tigela de barro ainda quente. O ensopado de cabrito coze em lume brando, temperado com alho e coentros do quintal, e a boroa de milho chega à mesa em fatias irregulares, com côdea estaladiça. Nos doces, os filhós de abóbora fritam-se em azeite e polvilham-se com açúcar e canela — receita que se repete nas cozinhas caseiras desde que há memória. Não há vinhos DOP, mas os vinhos de mesa de uvas crimson, produzidos em garrafões de vidro, acompanham as refeições sem cerimónia.
Trilhos entre o Barrocal e a Serra
A paisagem é de transição: nem serra alta, nem planície litoral. Santa Catarina situa-se a cerca de 140 metros de altitude, numa faixa onde o Barrocal calcário encontra os primeiros contrafortes da Serra do Caldeirão. O percurso pedestre que liga a aldeia a Santo Estêvão atravessa bosques de esteva e rosmaninho, passa por poços antigos de rega e oferece vistas largas sobre vales cobertos de olivais centenários. Apesar de fazer parte da área de influência do Parque Natural da Ria Formosa, a freguesia não toca o litoral — a Ria fica a vários quilómetros de distância, mas a sua presença ecológica sente-se nas aves migratórias que cruzam o céu no Inverno. Na primeira segunda-feira de cada mês, o mercado mensal transforma a praça principal num ponto de encontro: hortaliças, queijos de cabra, doces caseiros e conversas que se arrastam até meio da tarde.
Quando a tarde desce e o sol rasante ilumina as platibandas coloridas, o som que fica é o do vento nas oliveiras e o tilintar de um copo de medronho pousado sobre a pedra fresca da fonte. Aqui, a água ainda cura — ou pelo menos lava o olhar de quem chega.