Artigo completo sobre Carapito: Vila Manuelina Entre Dólmenes e Granito
Aldeia histórica em Aguiar da Beira preserva pelourinho de 1514 e o maior dólmen da Península Ibéric
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O eco dos passos sobre a calçada de granito ressoa entre casas de xisto. Ao fundo da praça, o pelourinho manuelino ergue-se desde 1514 no mesmo sítio — testemunha silenciosa de cinco séculos em que Carapito foi vila e sede de concelho até 1836, quando a reforma administrativa de Mouzinho da Silveira o reduziu à freguesia que hoje é. A luz da manhã desenha sombras alongadas nas pedras lavradas, e o sino da Igreja de Nossa Senhora da Purificação marca as horas com a cadência de quem nunca teve pressa.
Onde a pedra guarda cinco mil anos
Nos campos que rodeiam a aldeia, quatro monumentos megalíticos dormem entre sobreiros e pastagens. O Dolmen de Carapito — o maior da Península Ibérica — expõe uma câmara com 5,2 metros de diâmetro, blocos de granito que homens da pré-história moveram há 5.000 anos. O vento percorre as lajes cobertas de líquenes amarelos, e o silêncio só se quebra com o balir distante de ovelhas bordaleiras. Nos castros da Gralheira e das Abelhas, identificados pelo arqueólogo Virgílio Correia em 1921, a terra conserva os contornos de muralhas proto-históricas, socalcos onde os Aravi defendiam o acesso ao ouro do Jarmelo.
A subida ao Talefe
A Serra do Pisco eleva-se a 989 metros, trigésimo nono ponto mais alto de Portugal continental. No cume, o Talefe — marco geodésico erguido em 1954 com dez metros de altura — resistiu ao raio de 1987 que deslocou as pedras mas não o derrubou. O Trilho do Talefe sobe por sete quilómetros de mata de pinheiro bravo e castanheiros centenários, onde o cheiro a resina se mistura com o aroma húmido da terra. Lá em cima, a panorâmica abre-se sobre a cadeia da Estrela e o planalto beirão, extensão de xisto e verdura até onde a vista alcança.
Queijo, broa e chanfana
Na queijaria da Dona Alda, o leite de ovelha bordaleira transforma-se em Queijo Serra da Estrela DOP com cura mínima de trinta dias, requeijão que escorre sobre fatias de broa de milho mole de Aguiar. Nas lareiras de castanho, salpicão e chouriço de carne defumam lentamente, perfumando as cozinhas com fumo doce. A chanfana coze em panela de barro de Molelos, borrego marinado em vinho tinto do Dão — encruzado e touriga jaen que nascem nas encostas vizinhas do Tourigo. Ao fundo da mesa, filhós de abóbora e tortas de amêndoa acompanham o café, doçaria que sabe ao convento de Santa Maria de Aguiar, extinto em 1834.
O ritmo dos bombos
A 2 de Fevereiro, a romaria de Nossa Senhora da Purificação traz a aldeia inteira à procissão. O Grupo de Bombos de Carapito, fundado em 1987, abre caminho com rufar grave, seguido de cantares ao desafio que se prolongam pelos serões no Cineteatro Municipal, inaugurado em 1956. Em Dezembro, as três fogueiras da Lapinha, do Adro e do Rossio iluminam as ruas e presépios naturais ocupam largos e esquinas, luzes que aquecem as noites frias de Inverno a 682 metros de altitude. Desde 1979, o jornal «Caruspinus» — nome que o professor Arnaldo Sampaio adoptou a partir do latim Carus Pinus (querido pinheiro) — regista festas, nascimentos e memórias da terra.
O frio húmido da tarde desce com o nevoeiro que se enrola nas encostas. Junto ao pelourinho, a D. Aurélia fecha a porta de casa; o trinco range, metal contra madeira gretada pelo tempo. A aldeia acomoda-se no silêncio, e só o murmúrio do Carapito continua, descendo o vale em direcção ao Dão.