Artigo completo sobre Forninhos: pedra, vinhas e memória no planalto beirão
Aldeia a 527m de altitude guarda lagar rupestre, recinto medieval e tradição de queijo DOP
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O vento atravessa os campos sem pressa, levantando o cheiro a terra seca e a palha. Em Forninhos, o silêncio não é ausência — é presença densa, pontuada pelo canto distante de um galo e pelo farfalhar das oliveiras que crescem entre muros de xisto. A luz da manhã rasga o nevoeiro baixo, desenhando sombras compridas sobre os caminhos de terra batida que serpenteiam entre vinhas e lameiros. Aqui, a 527 metros de altitude, o planalto beirão respira devagar.
Pedra que guarda memória
No sítio de São Pedro de Matos, a história acumula-se em estratos. O recinto fortificado medieval, descoberto em escavações de 2013, revela uma ocupação esporádica entre os séculos X e XI — muros baixos de pedra que outrora delimitaram um refúgio, talvez uma atalaia sobre o território. Ao lado, um lagar rupestre escavado na rocha testemunha séculos de vindimas, o granito enegrecido pelo mosto. Fragmentos de sarcófagos emergem do solo como ossos de um passado que já não se ergue: a igreja dedicada a São Pedro, que ali existiu, foi destruída no final do século XX, levando consigo a necrópole medieval. Resta o abrigo natural sob a rocha, uma cavidade escura onde o eco amplifica cada passo, e as ruínas da aldeia abandonada — paredes sem telhado, soleiras de portas que já não levam a lado nenhum.
O topónimo Forninhos vem de "fornus", forno em latim. Não há certezas, mas a memória popular aponta para antigos fornos de queijo ou de cerâmica, estruturas onde o fogo transformava o leite em coalhada ou o barro em bilha. A freguesia mantém essa ligação ancestral com o queijo: o Queijo Serra da Estrela DOP e o Requeijão Serra da Estrela DOP chegam das quintas vizinhas, amarelos e cremosos, com aquele travo ligeiramente ácido que só a ovelha bordaleira e o cardo conferem. Na Rua da Igreja, a velha Casa do Queijo, encerrada desde 1997, ainda tem as prateleiras de madeira onde Dona Rosa Guarda, conhecida por "Rosinha do Queijo", amontoava queijos para curar durante três meses no laje acima da salamandra.
Vinhas e altitude
Os vinhedos estendem-se pelas encostas suaves, alinhados em filas que seguem as curvas do terreno. A região vinícola do Dão produz aqui tintos encorpados, de taninos firmes e aromas a frutos negros, que envelhecem bem nas caves frescas das quintas. Entre as vinhas, carvalhos e sobreiros isolados oferecem sombra ao gado. A Quinta do Vale da Raposa, na encosta a norte, vinifica em lagar de granito aberto em 1952; na vindima, a família Reis contrata vizinhos a 8 €/hora para pisar uvas ao som de acordeão. Ao longe, a Serra da Estrela desenha-se na linha do horizonte, cinzenta e imponente, lembrando a proximidade da montanha mesmo quando o dia aquece.
O ritmo da aldeia
Forninhos conta 208 habitantes, a maioria com mais de 65 anos. As ruas estreitas da aldeia preservam a arquitectura tradiceira beirã — casas de xisto e granito, portas baixas, janelas pequenas que guardam o calor no inverno. Há uma moradia disponível para alojamento, única opção para quem quiser pernoitar e acordar com o canto dos pássaros em vez de alarmes. O Café Correia, na esquina da Rua Principal com a Travessa do Chafariz, abre às 7h30 para servir bica a 0,60 € e tremoços ilimitados; à terça-feira há jogo de sueca entre camponeses que chegam de trator. As estradas municipais CM1147 e CM1148 ligam Forninhos a Sequeiros e Carapito, asfalto que acaba onde começa a levada de xisto que leva ao levadaço da Ribeira de Meruje. Em agosto, a Festa de Nossa Senhora do Viso reúne gente de cinco freguesias para procissão descalça subindo o adro da igreja matriz do século XVIII — o hino é entoado pelo coro de Aguiar da Beira acompanhando ao vivo por Tó Zé do acordeão.
No final da tarde, quando o sol poente incendeia as nuvens baixas sobre os campos, o lagar rupestre de São Pedro de Matos enche-se de sombra. A pedra ainda guarda o frio da noite anterior, húmida ao toque, e o vento traz o som distante de um sino — talvez da igreja paroquial, talvez apenas memória de sinos que já não tocam.