Artigo completo sobre Pena Verde: vinhas do Dão e queijo de ovelha a 713 metros
Conheça Pena Verde, Aguiar da Beira: aldeia a 713m de altitude na região do Dão, com queijo Serra da Estrela DOP e vinhas entre muros de xisto na Guarda.
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A estrada sobe, desce, volta a subir, e de repente o planalto abre-se como se alguém tivesse puxado uma cortina. Estamos a 713 metros, mas o que importa é que o horizonte parece ir até Espanha e o vento — esse sim — não tem dono. Pena Verde fica ali, espalhada como quem deixou cair as casas pelo chão, entre muros de xisto que mais parecem esculturas de um génio paciente.
Dizem os papéis que cá vivem 715 pessoas. Digo-lhe já: se encontrar cinco ao mesmo tempo na estrada principal, é dia de mercado ou há missa. O resto está nos campos, na horta, ou à porta de casa a ver o tempo passar. 278 têm mais de 65 anos — ou seja, a memória do lugar caminha com eles. Os miúdos são 50, o que dá para uma equipa de futebol e uns quantos suplentes. Traga-lhe um chocolate e vai ver como aparecem.
Vinhas, queijo e o que o Dão não diz
Estamos na região demarcada do Dão, sim, mas não pense em provas guiadas nem em gifts shops. Aqui o vinho faz-se em lagares que ainda cheiram a uva pisada e a conversa de homens que sabem o nome de cada vinha. As parcelas são pequenas, herança de tempos em que dividir a terra era dividir o pão. Se lhe oferecerem um copo de branco, aceite — mesmo que sejam dez da manhã. É educação.
O queijo é outra história. É Serra da Estrela DOP, mas não venha cá com romanticismos. É queijo que se come à colher quando está na cura certa, sim, mas também é queijo que se come em fatias grossas quando se está a fazer a sementeira e não há tempo para histories. O requeijão é para os miúdos e para quem tem má digestão — ou diz ter.
Onde se caminha sem GPS
Não há trilhos marcados, não há miradouros com selfies. Há caminhos que começam num portão e acabam onde o moço decidiu plantar batatas. Leve um pão e um chouriço na mochila — nunca se sabe se o vizinho o convida para um copo de vinho ou para provar um presunto que está a curar desde o Natal. As sebes de silvado são mais altas que um homem e servem para marcar terras e para esconder os casais adolescentes. Respeite.
No inverno, o nevoeiro desce como um cobertor molhado e pode perder-se a dez metros de casa. É normal. É também quando se ouvem melhor as histórias — porque ninguém tem pressa para ir para onde quer que seja.
O que não vai encontrar
Não há Wi-Fi. Não há café com leite de soja. Não há casa rural com jacuzzi. Há sim aquela tia que lhe arranja um quarto limpo e uma manta de flanela, e que fica ofendida se lhe oferecer dinheiro. Há o bar do Zé que abre quando ele acorda e fecha quando a mulher lhe telefona — serve imperial e um torresmo que pode curar uma depressão.
Mas há caldo verde à sexta-feira, há pão de centeio que a D. Lourdes faz no forno comunitário, há as romarias onde se come sardinha com pão molhado em vinho. Há o silêncio que faz ouvir o coração — e o coração, cá entre nós, às vezes assusta-se.
Ao fim do dia, quando o sol se põe atrás da serra e as sombras dos muros fazem geometrias no chão, Pena Verde mostra o que tem: uma porta que range desde 1953, um gato que veio do Brasil e nunca mais quis saber do Brasil, o cheiro a lenha queimada que é o perfume mais caro que conheço. Nada de especial — e por isso mesmo, quando se vai, trazemos cá dentro um bocadinho que não cabe em fotografias.