Artigo completo sobre União de Amoreira, Parada e Cabreira: pedra e história
Três aldeias no planalto de Almeida onde os barrocos guardam memórias de invasões francesas
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O vento atravessa o planalto a oitocentos metros de altitude e traz consigo o cheiro a terra seca, a oliveira e, se a estação permitir, a fumo de lenha que sobe das chaminés. Aqui, onde três aldeias se uniram no mapa mas permanecem distintas na paisagem, a pedra conta histórias em latim, os barrocos guardam memórias de invasões e as alminhas marcam encruzilhadas de caminhos que já ninguém percorre a cavalo. Amoreira, Parada e Cabreira formam uma união administrativa desde 2013, mas cada uma preserva a sua própria respiração, o seu próprio silêncio.
Quando as pedras falam línguas antigas
Em Parada, uma ara funerária romana do século II d.C. guarda uma inscrição que resiste ao tempo: "D(is) M(anibus) Talabonis Cenionis". O nome da aldeia vem precisamente dessa função antiga — ponto de parada das caravanas romanas que cruzavam estes planaltos pela via que ligava Vilar Formoso a Guarda. A Igreja de S. Domingos, com altar-mor rococó de 1778 mas torre sineira medieval, ergue-se no largo onde as casas tradicionais se encostam umas às outras, construídas na mesma pedra cinzenta que aflora por toda a encosta. O som dos sinos espalha-se pela paisagem aberta, sem obstáculos, até se perder nos vales onde corre a Ribeira das Cabras.
Mais a sul, Cabreira mostra a sua igreja matriz de Santa Maria Madalena, reconstruída em 1840 mas herdeira de um templo manuelino de 1611. Dizem ser uma das mais belas do concelho de Almeida — não pela ostentação, mas pela proporção justa, pela luz que entra pelas janelas altas e ilumina a nave. Nas encruzilhadas que rodeiam a aldeia, as alminhas do século XVII vigiam os caminhos, pequenos nichos onde a cal desbotada ainda guarda pinturas de almas do purgatório. A mais conhecida é a do Cemitério, onde se cruzavam os caminhos para Almeida e para Castelo Mendo.
Esconderijos de granito e memória
A paisagem aqui não é domesticada. Os barrocos naturais — formações rochosas que emergem do solo como gigantes adormecidos — pontuam os caminhos de Parada: Guincho, Pera Gorda, Estaca, Mesinha, Lapa Escura. Durante as invasões francesas de 1810, estas fendas e cavidades serviram de refúgio à população local quando Masséna percorria estes planaltos. Hoje, são testemunhas silenciosas, cobertas de musgo no lado norte, aquecidas pelo sol da tarde no lado sul. O Barroco da Arbitureira, mais isolado, exige caminhada de 40 minutos a partir da estrada municipal 615, mas recompensa com a vista sobre o planalto ondulado até onde a vista alcança o vale do Côa.
À mesa com a Beira Interior
Os olivais que descem as encostas produzem azeites DOP da Beira Interior — tanto da sub-região da Beira Alta como da Beira Baixa —, líquidos densos e frutados que acompanham o Cabrito da Beira IGP, assado lentamente em forno de lenha. A região vinícola da Beira Interior estende-se até aqui, com vinhas plantadas entre 500 e 800 metros de altitude que produzem tintos de Alfrocheiro e brancos de Siria. Nas adegas familiares ainda se guardam garrafas que envelhecem ao ritmo das estações. Anualmente, o Raid do Bucho e Outros Sabores trai motards e curiosos na segunda semana de Maio, enchendo temporariamente de ruído estas estradas onde, no resto do ano, só se ouve o vento.
O peso do silêncio
Com 307 habitantes espalhados por 3.128 hectares, a densidade populacional é quase abstracta: 9,8 pessoas por quilómetro quadrado. Segundo os dados do INE de 2021, 117 têm mais de sessenta e cinco anos; apenas treze são crianças com menos de 14 anos. Os caminhos rurais que ligam as três aldeias atravessam searas abandonadas desde a adesão à PAC nos anos 90, muros de pedra solta que desmoronam, portões de ferro enferrujado. Mas há uma resistência aqui — na igreja que se mantém aberta graças às irmandades locais, no fumeiro onde a chouriça cura ao fumo de sobreiro, no tractor John Deere de 1977 que ainda lavra as parcelas menos ingremes.
O eco dos passos no largo de Parada devolve o som amplificado, como se a pedra tivesse memória acústica de todos os que por ali passaram — romanos, invasores, peregrinos, contrabandistas que traziam café de Espanha durante a Guerra Colonial. E quando o vento acalma, fica apenas o silêncio espesso da altitude, interrompido pelo sino distante que marca as horas para quem ainda as conta.