Artigo completo sobre Freineda: o quartel-general de Wellington no planalto
A aldeia da Guarda onde o Duque traçou a vitória contra Masséna a 770 metros de altitude
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O chão range sob as solas. Não é a madeira de um soalho antigo, mas o saibro calcário do largo onde o vento bate sem aviso, vindo direto do planalto. A aldeia ergue-se a 770 metros, exposta, sem abrigos naturais que aparem o frio ou o sol. Aqui, a luz é dura — corta as arestas dos muros caiados, faz brilhar o granito dos umbrais, desenha sombras curtas ao meio-dia. Em frente à igreja matriz, um solar de dois pisos guarda a memória do homem que mudou o rumo da Guerra Peninsular. Foi ali, entre novembro de 1812 e maio de 1813, que o Duque de Wellington traçou os movimentos que empurrariam Masséna para lá da fronteira. A Casa Wellington ainda está de pé, fachada de pedra aparente, janelas de guilhotina, nenhuma placa turística. Quando passo por lá, vejo sempre as mesmas rendas nos estores, como se o tempo tivesse parado dentro de casa.
A geografia que escolheu um general
O planalto explica tudo. Visibilidade desafogada sobre os vales do Côa, rotas de fuga para norte ou sul, água corrente na ribeira de Santo Antão. Wellington sabia ler terreno. A aldeia que ele escolheu chamava-se então Fresnedas — do latim frinium, «floresta», pelo freixo que cobria o território antes da agricultura arrancar a árvore para abrir terra. Hoje, o que domina é mato baixo: giesta amarela na primavera, tojo espinhoso, tomilho que perfuma o ar quando se pisa sem querer. Os pinhais formam manchas escuras nas encostas; mais abaixo, junto ao rio, resistem alguns carvalhais de montado onde o javali revira a terra em busca de bolota. No outono, o cheiro a terra molhada mistura-se com o fumo das lareiras que se acendem cedo.
Santa Eufémia e o altar que sobreviveu ao barroco
A Igreja Matriz ergue-se no ponto mais alto, fachada barroca do século XVIII que esconde, lá dentro, um altar-mor renascentista — peça anterior, salva quando a igreja foi remodelada. O dourado está gasto, mas ainda capta a luz das velas. No chão da nave, lajes sepulcrais guardam túmulos de valor histórico incerto; ninguém sabe ao certo quem ali repousa. A minha avó dizia que era gente importante, mas não sabia dizer quem. A poucos passos, a Capela de Santa Eufémia repete as feições tardo-barrocas, mais modesta, porta quase sempre fechada. A 15 de setembro, dia da romaria e da feira anual, a aldeia enche. Há procissão, missa cantada, comes e bebes nas mesas corridas montadas no largo. É o único dia do ano em que a densidade populamental dispara. O cheiro do churrasco mistura-se com o doce das farturas, e os miúdos correm entre as bancas de bugigangas.
Bucho, cabrito e azeite da Beira Alta
A gastronomia não finge. O bucho — enchido feito com arroz, carne de porco e especiarias — tem festa própria em março, quando ainda há frio para justificar o fumeiro aceso. A minha tia faz o melhor da aldeia, leva dois dias a preparar. O cabrito assado no forno de lenha leva Azeite da Beira Alta DOP, produto que a região partilha com toda a denominação dos Azeites da Beira Interior. À mesa juntam-se o borrego, o arroz de lebre (caçada nos soutos que cercam a aldeia), o ensopado de javali, o queijo de ovelha e o requeijão caseiro. Nas tasquinhas — poucas, discretas —, o pão alentejano acompanha tudo. Ao balcão, licores de ervas da serra servem de fecho ou de conversa. O de medronho é que mata, dizem os velhos, mas ninguém recusa um copito.
O Côa, as charcas e os trilhos sem sinalização
O açude do Porto de São Miguel retém o Côa numa piscina natural onde a truta sobe na época das chuvas. Pato-bravo e rola frequentam as margens; o Clube de Caça e Pesca organiza concursos e jornadas de observação. Os trilhos pedestres seguem a linha de água até às charcas de Santo Antão, mas não esperes sinalização turística — é preciso perguntar, seguir o instinto ou o rasto das pegadas na lama seca. No sítio dos Cabaços, escavadas na rocha viva, as sepulturas antropomórficas medievais surgem sem aviso, ovais estreitas que acolheram corpos de adultos e crianças há séculos. O meu pai levava-me lá quando era pequena, dizia que eram camas de gigantes. Eu acreditava.
O fontanário do século XIX ainda verte água fria, mesmo em agosto. Quem enche o cântaro ou molha as mãos ouve o eco da pedra, o silêncio espesso do planalto e, ao longe, o sino da igreja a marcar as seis da tarde — hora em que a luz rasante incendeia o granito e a aldeia parece, por breves minutos, dourada. É nessa hora que os cães se deitam à porta das casas e as vozes se calam, como se a aldeia respirasse fundo antes da noite.