Artigo completo sobre Malpartida e Vale de Coelha: minerais raros e altitude
Terra de geologia singular e tradições serranas entre olivais e pastagens da Beira Interior
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A luz da manhã não desliza nada – bate direta, como quem não quer molestar. As casas de granito, pintadas de branco para não apanhar tanto sol, ficam logo geladas ao toque: é o preço de estar a 723 m. O ar vem fino, misturado com fumo de lareira e terra revirada pela enxada dos poucos que ainda metem mãos na terra. Cá, o silêncio é mesmo silêncio. Ouve-se um cão que ladra na aldeia ao lado como se fosse aqui ao pé; o som viaja desimpedido, porque não há nada no meio.
Isto agora chama-se União das Freguesias, inventado em 2013. Antes, Malpartida era Malpartida e Vale de Coelha era Vale de Coelha – e cada uma vivia na sua. Malpartida aparece em papéis do século XIII; Vale de Coelha tem cacos de loiça romana que o pessoal vai encontrando quando abre valas para a rede da água. Ambas cresceram à sombra de Almeida: quando a fronteira era coisa séria, quem cá vivia habituou-se a olhar para este e a perguntar “quantos são?”.
Sob os pés, pedra que vale dinheiro
Nas pedreiras abandonadas – há três, mas só os geólogos sabem onde –, o xisto esconde berilo verde-água, cassiterite e outras pedras que os alemões pagavam bem nos anos 80. Hoje já ninguém vai lá, mas quem percebe ainda leva o martelo no porta-bagagens: é só parar o carro, descer o barranco e dar três pancadas. O resto é conversa para quem colecciona minerais e gosta de mostrar aos amigos: “Isto veio da Beira, olha que lindo.”
O que se come (e o que se bebe)
O azeite é DOP, sim, mas não penses em grandes produções: são quatro dúzias de olivais esparsos, cada um com cinquenta árvores, o suficiente para o produtor ir à feira de Almeida vender garrafas de cinco litros e pagar o IUC. O cabrito é IGP, mas o cabrito mesmo só no Natal: o resto do ano é bode estufado com tomate e louro, a render três refeições. O vinho vem de videirinhas plantadas onde o tractor quase se engole – uvas de altitude que, se correr mal o ano, nem chegam à adega. Quando chegam, fazem um tinto que custa a descer mas que depois de aberta a segunda garrafa já sabe a glória.
O Côa, que não quer saber de regras
O Côa é o vizinho teimoso: nasce na Serra das Mesas e sobe para norte, contra tudo o que os livros ensinam. Atravessa aqui num desfiladeiro estreito; no Verão dá para molhar os pés, no Inverso nem os cães se atrevem. Quem quiser ver o rio tem de deixar o carro na estrada municipal e caminhar dez minutos. Leve água, leve bâton – e não se meta a jeito se estiver chover: o xisto fica liso que nem sabão.
Gente, ou o que resta dela
São 181 almas, segundo o recenseamento. Desses, 96 já têm reforma e 9 ainda vão à escola primária de Almeida de transporte. Os que ficam no meio trabalham onde podem: um vai para a obra em Vilar Formoso, outro conduz o camião do leite, a dona Rosa continua a fazer queijo de ovelha que vende a quem aparece. Às segundas abre o café, mas só até às 19 h: se não houver clientes, fecha-se mais cedo. Quem cá chega de fora acha que está no fim do mundo; quem cá nasceu garante que o mundo é aquilo que se vê do miradouro – e que chega.
Ao entardecer o xisto pega fogo sem chama: é o sol raso que doura tudo, antes de o frio descer outra vez. Sobem as lareiras, cheira-se a lenha de carvalho e a borra do vinho que alguém deixou cair na pedra. Fica-se ali, de mãos nos bolsos, a ver o fumo subir recto até desfazer-se. Não há mais programa – e não é preciso.