Artigo completo sobre Nave de Haver: Silêncio e Altitude na Raia da Guarda
Aldeia de xisto a 800 metros onde vivem 295 habitantes em 4 mil hectares de planície ventosa
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O silêncio em Nave de Haver tem peso. Não é a ausência de som, mas uma presença física que se sente nos ossos quando se atravessa a planície a oitocentos metros de altitude. O vento varre os campos abertos, curva as ervas secas, traz o cheiro a terra fria e a pedra. Aqui, no extremo oriental do distrito da Guarda, a luz rasante da tarde estende sombras compridas sobre os muros de xisto, e o ar tem aquela nitidez cortante que só existe nas terras altas da Beira Interior.
São duzentos e noventa e cinco habitantes — na prática, menos de duzentos que ficam o ano inteiro. Os outros vieram para o Facebook da Junta reclamar que estavam a ser contados como residentes quando só cá passam as férias. Sete pessoas por quilómetro quadrado, mas parecem menos. Nas ruas, os passos ecoam contra fachadas caiadas. O som de uma porta que se fecha propaga-se pela aldeia inteira. Os idosos — a maioria viúvas que ainda fazem a horta e homens que se encontram na esplanada do José para beber um bagaço às dez da manhã — movem-se devagar. Param para conversar encostados aos umbrais, falando em voz alta porque metade não ouve bem. As suas vozes graves misturam-se com o cacarejar de galinhas nos quintais traseiros e com o miar da gata da Dona Albertina que anda grávida outra vez.
O que se come
A gastronomia é o que a terra dá. O cabrito que se come no restaurante O Júlio vem mesmo dos campos que se vêm da janela — pastou onde agora há três solares abandonados. A carne é densa, escura, temperada apenas com sal grosso e alho plantado no quintal da Zélia. Os azeites são do Lagar do Côa, o mesmo que o pai do Zé Manel comprou quando ainda se fazia azeite em lagar de pedra. Corre espesso, deixa um filete dourado no pão de centeio que a mulher do Zé manda fazer à Bia, que tem forno de lenha. O cheiro a alho refogado escapa pelas frestas das janelas ao fim da tarde — é o jantar da Dona Amélia, que cozinha sempre para quatro, mesmo quando está só.
O vinho tinto é do Piteira, bebe-se em copos pequenos que o pai do Zé guarda no armário de cima. Acompanha o cabrito assado, as batatas da terra que ainda têm terra, o queijo da quinta do Seixas que a filha traz quando vem de Belmonte. Range entre os dentes, deixa a boca seca, pede outro gole.
O tempo que aqui se faz
A altitude — 823 metros, mas ninguém diz os vinte e três — faz-se sentir no corpo. O ar é mais fino, os pulmões trabalham um pouco mais, o frio da manhã penetra o casaco mesmo em Junho. No Verão, o sol queima a pele mas não aquece como na planície — às quatro da tarde já se sente o fresquinho. No Inverno, o gelo desenha padrões nas poças, e o fumo das lareiras sobe direito, sem vento que o desmanche. É quando se vem do Fundão que se nota mesmo — desce-se a Serra da Gardunha e o termómetro sobe cinco graus.
Aqui, o tempo mede-se por coisas simples: o sino da igreja que marca as horas — três badaladas para as três, mas às vezes o sacristão esquece-se. O cair da noite que chega cedo entre Outubro e Março, tão cedo que ainda se está a jantar. O ladrar do Piloto, o cão do Zé Manel, que só ladra quando passa alguém que não conhece. Não há multidões — a densidade populacional garante-o. Não há pressa. Apenas o ritmo lento de quem conhece cada pedra do caminho, cada curva da estrada, cada nome das famílias que aqui ficaram — e dos que partiram para França mas ainda têm a chave de casa.
Ao anoitecer, as luzes amarelas acendem-se uma a uma nas janelas. Primeiro a da Dona Amélia, depois a do Zé Manel, por último a do restaurante que ainda tem clientes. O frio aperta. Lá dentro, o calor da lareira, o cheiro a lenha de carvalho que o Zé vai buscar ao monte, o som baixo da SIC Notícias. E, sobre tudo isto, o silêncio da planície que volta a instalar-se — não é absoluto, mas é suficiente para ouvir o relógio da parede e o estômago a rosnar até à manhã seguinte.