Artigo completo sobre Baraçal: solares, castro e a morte do galo
Vila beirã com três solares senhoriais, capela de promessa militar e capitel de pelourinho perdido
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O capitel hexagonal repousa junto à fonte grande, testemunho silencioso de um pelourinho que desapareceu numa festa pagã chamada "morte do galo". A água corre pela pedra, indiferente ao facto de que ali, séculos atrás, se administrava justiça senhorial — com direito a prisão e forca. Baraçal carrega na toponímia a incerteza: pode vir de "bracejo", a gramínea esparto que cobria os campos, ou de "baraço", a corda que executava sentenças. Ninguém sabe ao certo, mas todos conhecem a história do capitel resgatado, guardado como relíquia de uma vila que já teve Casa da Câmara e foros de pequeno poder.
Solares que falam de riqueza antiga
Três solares senhoriais marcam o casario. A luz da tarde bate nas cantarias de granito, desenhando sombras nos portões de ferro forjado. Não são museus — alguns ainda habitados, outros em silêncio — mas a sua presença impõe respeito. Entre eles ergue-se a capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso, mandada construir pelo coronel João Rodrigues Magalhães depois de ter escapado ileso a uma batalha nos Pirenéus, durante a Guerra Peninsular. A promessa feita no campo de batalha materializou-se em cal e pedra, altar de gratidão que ainda recebe luz de velas.
A vista do monte da Cabeça Grande
Subir ao castro do monte da Cabeça Grande é percorrer camadas de ocupação humana. Vestígios de muralhas afloram entre o mato, pedras que dominaram a paisagem quando este era posto de vigia. Hoje, a 570 metros, o "Castelo do Baraçal" serve de miradouro natural: a Serra da Estrela desenha-se ao longe, os pinhais estendem-se em ondas verdes, e o vento traz o cheiro a resina. Aos domingos, famílias sobem com cestos de piquenique e instalam-se na zona de lazer, aproveitando a sombra dos pinheiros enquanto as crianças correm no parque infantil.
Queijo fresco e azeite da Beira
A pastorícia marca o ritmo das quintas. O Queijo Serra da Estrela DOP amadurece em caves escuras, massa cremosa que escorre quando se abre a côdea. O Requeijão Serra da Estrela DOP, ainda morno, come-se à colher, sabor lácteo intenso que pede pão de centeio. Nas encostas, oliveiras centenárias produzem o Azeite da Beira Interior DOP, prensado a frio, verde-dourado ao sol. O Borrego Serra da Estrela DOP e o Cabrito da Beira IGP completam uma gastronomia que se baseia no ciclo das estações e no trabalho manual.
O jogo do Chincalhão e a linha desativada
Nos cafés locais ainda se joga o Chincalhão, jogo de regras complexas que exige número par de jogadores e memória afiada. As peças batem na mesa, comentários cruzam-se em voz baixa, o fumo do tabaco sobe devagar. A estação ferroviária da Beira Alta desapareceu com a modernização da linha — os carris foram levantados, o edifício será demolido — mas a população continua a usar a estação "Celorico-Gare", a cinco quilómetros, porta de entrada e saída para quem ainda viaja de comboio.
A tarde escorre pelos caminhos rurais entre Cortegada e Baraçal, percurso que atravessa pastagens onde ovelhas pastam sem pressa. O sino da igreja marca as seis, som metálico que ecoa nos vales e se perde nos pinhais. Aqui, o silêncio não é vazio — é preenchido pelo vento, pelo balido distante, pelo ranger de um portão de madeira que alguém fecha antes de anoitecer.