Artigo completo sobre Carrapichana: borrego, pastagens e memória romana
Freguesia serrana de 180 habitantes celebra pastorícia ancestral e via romana no sopé da Estrela
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O cheiro a lenha queimada sobe pelas encostas e mistura-se com o aroma a carne assada que vem das tasquinhas montadas na praça. É final de outubro em Carrapichana, e durante dois dias o borrego volta a ser protagonista de uma festa que reúne toda a freguesia — o que quer dizer: os 180 habitantes, mais os filhos que vieram passar o fim-de-semana e os curiosos de fora que ouviram falar da festa. Nas mesas improvisadas, as conversas cruzam-se entre o som metálico dos talheres e o eco distante de um sino que marca as horas com a precisão de quem nunca teve pressa.
Esta pequena comunidade, pousada a quinhentos e vinte metros de altitude nas dobras do Parque Natural da Serra da Estrela, mantém uma ligação visceral à pastorícia — mas não é romântica, é sobrevivência. As pastagens que cobrem os 560 hectares da freguesia alimentam os rebanhos ovinos que dão origem ao Queijo Serra da Estrela DOP e ao Borrego Serra da Estrela DOP. A paisagem abre-se em clareiras verdes pontuadas por muros de pedra seca que alguém construiu há décadas e ninguém teve coragem de deitar abaixo.
Memória Romana nas Pedras do Caminho
Quem caminha pelos trilhos do Geopark Estrela que atravessam Carrapichana pisa, sem saber, um corredor viário romano que há dois milénios ligava as explorações mineiras do Norte à capital provincial Emerita Augusta. A via passava por Longa, Arcos e Guilheiro antes de seguir para Belmonte, cruzando a serra num traçado que hoje só se adivinha em troços de calçada desgastada e na própria lógica do terreno. Dizem que os velhos ainda encontram moedas de vez em quando, mas ninguém as guarda — são de cobre, vale menos que um café.
O Borrego que Reúne Dez Concelhos
O Festival do Borrego Serra da Estrela, nos dias 25 e 26 de outubro, transforma a freguesia numa espécie de capital gastronómica efémera. Vinte e cinco restaurantes de dez concelhos da região demarcada aderem à Semana do Borrego, mas é em Carrapichana que a celebração ganha corpo e música ao vivo — normalmente é o Joaquim, que toca acordeão e tem um repertório que não mudou desde 1987. Nas grelhas improvisadas, a carne loira do borrego criado em pastagem natural ganha tons dourados e uma crosta estaladiça. Acompanha-se com azeite da Beira Interior DOP e com o queijo curado que ainda se produz nos currais das redondezas — o Zé do Lameiro faz um queijo que não pára na mesa mais de dois dias.
Densidade Humana, Densidade de Silêncio
Com pouco mais de trinta habitantes por quilómetro quadrado, Carrapichana oferece algo que se tornou raro: espaço para respirar sem tropeçar em multidões ou roteiros pré-fabricados. Os dois alojamentos locais — moradias e quartos de carácter familiar — garantem uma estadia discreta. São casos da Dona Amélia e do António, que alugam quartos que estavam vazios desde que os filhos foram para a cidade. Não há recepção, há um telefone que atende sempre ao quarto toque. Aqui, o turismo ainda não impôs a sua gramática. As experiências surgem da observação paciente: o pastor que conduz o rebanho ao fim da tarde (é o Alberto, vai beber um aguardente à Tasca do Ferraz antes de regressar), o fumo que sai da chaminé de uma casa isolada, o frio húmido da manhã que adere à pele quando se sai à rua antes do sol nascer — e que faz com que a senhora da padaria abra meia hora mais tardo no inverno.
Na última noite do festival, quando as brasas das grelhas arrefecem e as vozes se dispersam pela escuridão, fica o eco metálico de uma colher que bate no fundo de uma panela vazia. É a Célia a recolher a loiça, tal como faz desde que se casou com o Joaquim. O som ressoa na praça deserta como o sinal de que tudo volta ao normal — até ao próximo ano, quando o borrego volta a ser rei por dois dias.