Artigo completo sobre Casas do Soeiro: memórias de emigrantes em betão
Freguesia nascida em 1988 ergue-se entre modernidade e vestígios medievais na serra da Guarda
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O cheiro a pão de milho ainda quente sobe pela rua enquanto a campainha da Igreja Matriz marca as dez da manhã. Casas do Soeiro acorda devagar, com o sol a iluminar as fachadas recentes — blocos de reboco claro que contam outra história que não a do xisto antigo das aldeias vizinhas. Aqui, a pedra deu lugar ao betão nos anos oitenta, quando centenas de emigrantes regressados de França, Suíça e Itália decidiram erguer casa na terra de onde tinham partido. O resultado é uma freguesia que parece suspensa entre dois tempos: o da memória rural e o da modernidade pragmática.
Nascida de uma campanha cívica
A 23 de maio de 1988, Casas do Soeiro tornou-se a freguesia mais jovem de Celorico da Beira — apenas dois anos bastaram para que a campanha cívica local convencesse as autoridades de que este aglomerado merecia autonomia. Antes, dependia de São Pedro, com pequena parte de Cortiçô da Serra. A tradição atribui o nome a um fidalgo chamado Soeiro, fundador do lugar, mas são os emigrantes que verdadeiramente moldaram a sua feição actual. O jardim de infância, a escola primária, a Casa do Povo e o campo de futebol ocupam terrenos que há quarenta anos eram searas de centeio e batatas.
A epígrafe esquecida da Quinta dos Cedros
No meio desta expansão recente, a Quinta dos Cedros guarda um segredo lavrado em pedra: uma epígrafe de 1217 que documenta a construção da antiga Igreja de São Martinho, a inscrição mais antiga do concelho relativa a um templo. O granito cinzento, gasto por oito séculos de intempéries, exige que te aproximes para decifrar as letras. Ali ao lado, o Brasão da Quinta do Vale testemunha a presença senhorial que um dia administrou estas terras de pastagens e olivais. A Fonte do Russo — nome que nada tem de eslavo, apenas o apelido de famílias locais — continua a ser ponto de encontro, onde a água fria corre sobre a pedra musgosa e onde ainda hoje algumas mulheres vão lavar a roupa quando a seca do verão seca os poços.
Agosto traz os ausentes de volta
A Festa do Emigrante, no primeiro fim-de-semana de agosto, transforma Casas do Soeiro num palco de memórias partilhadas. Os franceses chegam de caravana com matraquilhos e cerveja, os suíços trazem chocolates e relógios para oferecer, os italianos exibem os fatos novos. Músicas da Beira Alta ecoam pela praça, enquanto o cheiro a cabrito assado no forno comunitário se mistura com o das sardinhas na brasa. A Liga dos Amigos organiza bailes que duram até ao amanhecer — o bailarico começa às dez da noite mas só aquece depois da uma, quando os mais velhos já beberam o terceiro aguardente. A 4 de dezembro, Santa Bárbara é celebrada com missa às sete da manhã e os pastéis conventuais que levam o seu nome — massa folhada recheada de doce de ovos que se desfaz na língua, feitos pelas mulheres que ainda se reúnem na Casa do Povo com os tabuleiros sobre os joelhos.
Entre o queijo e a montanha
Os 599 hectares de relevo ondulado, a 462 metros de altitude, estendem-se entre olivais DOP da Beira Interior e pastagens onde ovelhas bordaleiras produzem o leite para o Queijo Serra da Estrela. O requeijão fresco, ainda morno, vende-se directamente nas portas — cremoso, ligeiramente ácido, perfeito sobre uma fatia grossa de pão de milho que a D. Rosa tira do forno às quartas e sábados. A freguesia integra o Parque Natural da Serra da Estrela e o Geopark Estrela, com trilhos rurais que ligam a EN 16 à EN 17, oferecendo vistas sobre o Mondego e os contrafortes que sobem até ao maciço. Mas quem aqui vive sabe que o melhor miradouro é o cimo da estrada que sobe à Escola Nova, onde se vê toda a planície até ao Caramulo e onde os miúdos vão fumar os primeiros cigarros escondidos.
Ao fim da tarde, quando o sol rasante dourar as fachadas claras e o sino tocar para as ave-marias, percebes que esta é uma terra onde a nostalgia se construiu em cimento — sólida, habitável, estranhamente comovente.