Artigo completo sobre Cortiçô da Serra: onde Beresford acampou em 1810
Três aldeias unidas pelo granito, queijo DOP e memória das invasões francesas na Serra da Estrela
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O granito emerge da terra como punhos cerrados, desafiando o céu a 682 metros de altitude. Nos penedos — o Gordo, o do Bico, o da Bota — o vento da Serra da Estrela acumula histórias de séculos, enquanto lá em baixo, nas aldeias que se agarram à montanha, o fumo sobe direito das chaminés. Cortiçô da Serra, Vide Entre Vinhas e Salgueirais formam uma união recente no papel — desde 2013 — mas antiga na memória da pedra e do queijo que aqui se faz desde que há registo.
Quando os franceses acampavam entre penedos
Em 1810, o general Beresford escolheu Cortiçô da Serra para instalar o seu quartel-general durante as invasões francesas. A aldeia, que já tinha foral desde 1254 — concedido por Martim Pires e D. Teresa Martins — e pertencera à Ordem do Hospital, conhecia bem o peso da estratégia militar. O nome vem de "descortiçar", como quem tira a casca ao sobreiro, e durante séculos a aldeia foi também conhecida por Vila Boa de Jejua. Depois, o IP5 abriu e o trânsito desviou-se, levando consigo parte do movimento que alimentava a rua principal. Hoje, os 362 habitantes — 162 deles com mais de 65 anos — guardam a memória numa canção tradicional que celebra "a beleza da terra e a qualidade do seu queijo".
Pedra sobre pedra, cal sobre cal
A Capela de S. Sebastião ergue-se em Cortiçô da Serra, branca contra o granito escuro. O cruzeiro marca o centro da aldeia, enquanto nas ruínas da Quintã ainda se adivinham os contornos de um antigo convento. Em Vide Entre Vinhas — nome que não mente, porque as vinhas sempre abundaram nestas encostas — restam as ruínas da Igreja de Santa Apolónia e, no alto, os vestígios de um castro no Penedo Gordo. Salgueirais deve o nome aos salgueiros que crescem junto à ribeira e apresenta um Largo da Igreja cuidadosamente recuperado, onde os edifícios restaurados contrastam com a rudeza da paisagem envolvente.
O queijo que se faz de mãos calosas
O Queijo Serra da Estrela DOP nasce aqui das mãos que ordenham ao amanhecer, quando o frio morde os dedos e o leite fumega nos baldes de zinco. O Requeijão Serra da Estrela DOP escorre cremoso nas formas de madeira, enquanto o Borrego e o Cabrito da Beira — ambos protegidos — pastam nos baldios que ocupam grande parte dos 2233 hectares da freguesia. O azeite da Beira Interior tempera os enchidos artesanais, a batata, o feijão e a cebola que crescem nos socalcos. Nas festas — Imaculada Conceição em dezembro, S. Sebastião em agosto, S. António em junho — as mesas enchem-se destes sabores que não mentem sobre a dureza da montanha.
Água represada e horizontes largos
A Barragem de Salgueirais reflecte o céu cinzento ou azul, conforme o humor da serra. Daqui, os trilhos sobem e descem por entre castanheiros e pinheiros, abrindo vistas sobre Trancoso, Mangualde, Gouveia e Guarda — terras vizinhas que se estendem até onde a vista alcança. O Parque Natural da Serra da Estrela e o Geopark Estrela garantem que esta paisagem de granito, água e silêncio permanece intacta, enquanto os 29 jovens da freguesia — os únicos com menos de 15 anos — aprendem os nomes dos penedos e o caminho até à Fonte dos Namorados.
O Rancho Folclórico de Vide-Entre-Vinhas ensaia nas noites de inverno, e o som das concertinas atravessa o nevoeiro espesso que sobe do vale, misturando-se com o cheiro a lenha queimada e ao queijo que cura lentamente nas caves.