Artigo completo sobre Mesquitela: Pão de Forno e Pedra na Serra da Estrela
Conheça Mesquitela, freguesia de Celorico da Beira na Guarda, onde um forno comunitário centenário mantém tradições vivas entre vales de granito e memórias
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O fumo sobe direito da chaminé do forno comunitário, como se não tivesse pressa nenhuma. É sábado, e o cheiro a lenha de carvalho mistura-se com o aroma da massa a crescer - aquele cheiro que faz lembrar a casa da avó, mesmo quem nunca teve avó na aldeia. Dentro, sobre a pedra que já vai nos trezentos e tal, as duas irmãs Lurdes e Amélia - sim, são sempre elas - vão rodando os pães com a pá de madeira, enquanto comentam os problemas do neto da uma e do fígado da outra. O forno é de 1923, restaurado há uns anos, mas o segredo continua a ser o tempo: não há cronómetro que diga quando está no ponto, isso nota-se pelo som da côdea quando bates com a unha.
A freguesia agarra-se à encosta da serra como quem se agarra a um casaco velho - 476 metros de altitude, 203 almas e meia (porque o Zé do Cabrito só cá vem nos fins-de-semana). O Ribeiro de Carvalhal foi cortando o granito ao longo dos séculos, fazendo vales que parecem feitos à faca. Em Valverde há um sobreiro que deve ter visto Napoleão - 250 anos e 5,2 metros de perímetro, mas o que impressiona é que ainda dá cortiça de jeito. Em 1864 havia 435 pessoas aqui; hoje, se juntar-mos todos os cães e gatos, ainda não chegamos a esse número.
Pedra, talha e as histórias que o padre não conta
A Igreja Matriz está ali no largo, branca como leite coalhado contra o granito. O retábulo é talhado à moda antiga - dá para ver onde o mestre falhou um golpe e tentou disfarçar. Os azulejos contam a vida da Virgem, mas é o cruzeiro do adro que tem as melhores histórias: dizem que foi aí que o António da Tasca, em 42, jurou que se voltasse da guerra fazia uma romaria todos os anos. Voltou, claro, mas a romaria durou três anos - depois arranjou uma namorada em Mangualde e esqueceu-se da promessa.
Dois quilómetros acima, a Capela de São Bento é mais pequena que a cozinha da minha avó, mas lá vai resistindo desde que D. Sebastião andava por cá. A romaria de 11 de julho já foi grande coisa - hoje é meia dúzia de velhas e o padre que vem de Celorico, mas ainda se faz o percurso a pé por uma senda onde se pode aprender o nome das plantas que servem para desentupir o fígado ou fazer chá para a tosse.
O que se come (e o que se bebe)
O cabrito de Mesquitela não é aquele cabrito de supermercado - é aquele que pastou no monte, comeu ervas aromáticas e foi tratado como um membro da família até ao dia fatídico. Assado na brasa, com um murro de alho e alecrim, é Baba de Camelo para quem gosta de coisas sérias. A chanfana é do talho do Zé - leva vinho daqui, da Beira Interior, que é como o Dão mas com menos pretensões. No outono, a sopa de castanhas é espessa como conversa de café - leva fumados de toucinho daquelas porcas pretas que o João do Vale cria no monte.
O queijo Serra da Estrela é obrigatório - fresco ou curado, depende se querem conversa com o Nuno do queijar ou não. O requeijão com mel de urze é para os dias em que a vida parece demasiado complicada. O azeite, esse é frutado e picante como deve ser - o que o João produz nas suas 300 oliveiras dá para temperar a vida inteira de um gajo.
Caminhos, castanhas e o comboio que já não vem
O «Caminho dos Moinhos» é o melhor remédio para ressaca - oito quilómetros que descem até Carvalhal do Mondego, passando pelo moinho do Pego que agora é centro de interpretação mas antes era onde o meu avó levava o milho para moer. No Alto da Senhora do Monte, a vista chega à Torre nos dias limpos - e se não chegar, é porque se está na hora de ir beber mais um café.
Em outubro, há magusto no adro da igreja. Assam-se castanhas na fogueira, bebe-se jeropiga que o António faz em casa (e que faz falar com os mortos), e conta-se a história da estação - sim, passava aqui o comboio da Beira Baixa até 89. Hoje a placa ainda está lá, mas o único comboio que passa é o das memórias quando o Zé do Pipo se pôe a contar como ia a pé até à estação para vender os cabritos em Castelo Branco.
Quando o último pão sai do forno - aquele que tem a forma torta porque a Amélia foi distraída - e a porta de ferro range ao fechar, fica no ar o cheiro a côdea torrada misturado com o fumo do último cigarro do Zé. É Mesquitela: não há relógio que valha, mas há tempo para tudo - para o pão crescer, para as histórias nascerem, para os gatos se arrumarem no sol da parede.