Artigo completo sobre Ratoeira: aldeia de granito no sopé da Estrela
245 habitantes preservam tradições agrícolas entre olivais e hortas na Beira Interior
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A estrada desce que nem caracol até à Ratoeira. Olha para o lado e vês oliveiras traiçoeiras: já derreteram neve, aguentaram com tudo, mas ainda te armam uma ginástica se lhes pedires um azeite mole. A aldeia aparece assim, sem trombetas — casinhas de granito agarradas umas às outras como velhos no café a discutir futebol. Telhados de telha de burro, muretas que servem mais para apoio de cotovelo do que para separar quintais. A 427 m, o ar cheira a terra batida e, no inverno, a fumo de carvalho que sai pela chaminé e faz lembrar os teus avós.
Cá moram 245 alma. Dá para encher o café central duas vezes e ainda sobram cadeiras. Desses, 92 já têm idade para se queixarem do governo em voz alta e 24 andam de patins à frente da escola. O resto está no meio, a contar os dias para a feira de domingo em Celorico. Olha à tua volta: horta lavrada, oliveira podada, ovelha no lameiro. Parece cenário, mas é sobrevivência. Eles dizem que é vida.
No sopé da Estrela
A serra está ali ao lado, tão perto que a sombra dela aquece a aldeia antes de escurecer. Segue a estrada de terra acima e em dez minutos estás no carvalhal; mais quinhentos metros e a água do ribeiro é tão fria que até ao dente do siso gelado. No domingo em que neva lá em cima, aqui fica o cheiro a lenha queimada e a conversa sobre quem foi buscar leite à Covilhã de trator.
Ratoeira entra no clube do Geopark, mas isso para o Zé do Celeiro é só etiqueta. O que ele sabe é que aquela pedra lá do alto é granito “que aguenta um casamento”, e que quando era miúdo usavam-na para medir se a chuva trazia ou não enxurada. Caminhar por aqui é pisar história, sim, mas com atenção ao buraco onde a vaca do vizinho partiu a pata ontem.
Sabores que não precisam de apresentação
Na mesa não há discurso, há prato. Serra da Estrela DOP é como dizer “pão de forma” em Lisboa — está lá todos os dias. O queijo, o requeijão, o azeite verde que pica na garganta. Cabrito só se for dia de aniversário ou se o Visconde (o cabrito, não o parente) estiver com o peso certo. O borrego vai ao forno com batata às rodelas e um chouriço de carne lá no meio para dar gordura; o forno é de lenha, o relógio é o cheiro.
Em algumas caves ainda se fuma à moda antiga: chouriça de papo seco, presunto com pé de cenoura, fumo que deixa a parede preta e o vizinho com inveja. O azeite é prensado no lagar do Manel, que abre só quando juntam quatro quintais de azeitona. Verde, espesso, deixa-te a boca a parecer que mordeste a própria oliveira.
Quando o sol se põe atrás da igreja, a aldeia fecha-se como livro ao fim do capítulo: primeiro o estalar das janelas de madeira, depois o cão do Toninho que ladra ao vento, por fim o sino das nove que avisa que é hora de deixar o copo vazio. Não há aqui monumento nenhum para tirar selfie. Há é gente que ainda amanha às sete vai para o curral, chuva ou geada. E isso, meu amigo, é o que faz de Ratoeira sítio que merece uma desvio — nem que seja só para provar o queijo antes que ele ganhe trânsito e dobre o preço.