Artigo completo sobre Escalhão: Igreja Fortificada e Memórias da Restauração
Aldeia raiana no vale do Águeda guarda castelo de D. Dinis, olivais centenários e ponte romana
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A luz da manhã desce as encostas do vale do Águeda e recorta a torre sineira que parece demasiado grande para uma aldeia de 566 pessoas. A Igreja Matriz — uma das maiores da zona — tem paredes tão grossas que guardam o fresco no verão e o calor no inverno, como um bom casaco de lã. A 584 metros de altitude, o silêncio só é estragado pelo apito dos grifos que sobem nas térmicas sobre o Douro Internacional.
Fronteira, Honra e Ruínas
Escalhão ficou grande porque está no sítio errado: colado à margem esquerda do Águeda, serviu de tampão às invasões. Em 1648, João IV deu-lhe um título de honra por ter aguentado os castelhanos; dois anos depois, fez-a vila. O castelo que D. Dinis mandou erguer em 1310 hoje é um amontoado de pedras onde os miúdos brincam às escondidas, mas o cruzeiro no largo continua lá, como quem diz "ficámos". A igreja, com aqueles contrafortes todos, parece mais um bunker do que uma casa de Deus — e era mesmo isso.
Antes dos reis, os romanos já cá passavam. A ponte sobre a Ribeira de Águeda, com pedras gastas por dois milénios de pisadelas, era parte da estrada que ia da Guarda a Astorga. Os peregrinos para Santiago cá pisavam, e se repararem bem, ainda se vêem as marcas das botas na pedra mole.
Azeite, Pedra e Floração
Os olivais de Escalhão são como velhos do café: torcidos, rugidos, mas ainda a dar conversa. Cerca de 600 oliveiras continuam a produzir, e o azeite que delas sai entra na DOP Beira Interior. No restaurante O Lagar — sim, é mesmo o antigo lagar — servem-no às colheradas, sem essas histórias de pingar três gotas num prato branco. Acompanha cabrito da Beira e queijo Terrincho, e pronto. A cozinha não precisa de inventar: o que cá nasce chega.
Em fevereiro-março, os amendoais metem-se a florir e o vale fica pintado de branco e rosa, como se alguém tivesse deixado cair açúcar p’raqui. O melhor sítio para ver isto é o Miradouro do Alto da Sapinha: dá para o Águeda, o Douro lá ao fundo e, em dias bons, até se espreitam as terras de Salamanca. Levem um casaco — o vento é daqueles que metem conversa.
Pernoitar Entre Pedras Antigas
Há três casas de campo recuperadas: paredes de metro e meio, janelas com vista para os socalcos e, à noite, um céu que ainda não foi roubado pelas luzes. Escalhão não tem discoteca, nem shopping, nem padaria aberta às três da manhã. Tem trilhos no Douro Internacional para caminhar sem pressa, a ponte romana para tocar com as mãos e um silêncio que é raro por aí fora.
No fim da aldeia há um pomboal centeário, redondo como um silo, com buracos vazios onde entravam pombos. Já não há pombos, mas o buraco fica — como as casas fechadas, como as ruas que levam às escolas vazias. Às seis e meia, quando o sino da igreja dá três badaladas e o sol pega nas casas de granito, lembramo-nos que Escalhão é isto: uma aldeia que guarda a forma das coisas que já não servem, mas não se atira fora.