Artigo completo sobre Cortiçô e Vila Chã: Pedra Antiga na Serra de Algodres
Duas aldeias unidas pelo xisto, pela altitude e por nove séculos de história rural na Guarda
Ocultar artigo Ler artigo completo
O sino da Igreja de São Pelágio toca e demora. Não é grave, é só lento, como quem não tem pressa nenhuma. O som vai abaixo, bate na Serra de Algodres, sobe outra vez e só depois morre. Às vezes, quando o ar está mesmo limpo — e aqui a 679 metros limpo é mesmo limpo — ainda o ouvimos a rolar quando já não há sino nenhum.
Cortiçô e Vila Chã juntaram-se em 2013 por decisão de quem não cá vive. A União das Freguesias ocupa 804 hectares, mas ocupa é um grande nome: são duas aldeias, alguns caminhos de terra, duas igrejas e um montado de sobreiros que sobe a encosta. Aqui o silêncio não é ausência; é só o que sobra quando o trator do Zé para e o cão do Toninho decide dormir.
Pedra que guarda séculos
Cortiçô aparece em 1170, na Carta de Couto de Figueiró, com o nome de “Cortiçolo” — ou seja, lugar dos sobreiros, daqueles que ainda hoje se descascam de quatro em quatro anos. A igreja de São Pelágio é românica, sim, mas não é espetáculo: é pedra amontoada, cheia de falhas e remendos, e tem um campanário que parece ter sido encostado lá em cima como quem mete uma vela no bolo. Em Vila Chã, a terra é mais plana, o terreno menos maluco, e a Igreja da Graça mostra-se mais direita, mais fina, como quem veio de Lisboa e não quer confusões. Entre elas, um caminho de laje que o pessoal chama “o paredão” — se fores de bicicleta, podes ir assobiando; se fores a pé, leva água, porque sombra só na figueira do morgado.
A memória da peste
Em 1855 a cólera entrou em Cortiçô e, em oito dias, levou 25 pessoas. A Câmara pôs guardas no caminho, armou um barracão de madeira ali para cima do adro e rezou para que o mal não descesse até Fornos. Hoje não há placa, nem flor, nem nome pintado no muro. Há é lápides repetidas: Matias, Matias, Matias — a mesma família que perdeu três irmãos em três dias. Se perguntares ao Sr. Joaquim, que agora tem 87, ele aponta para o chão da igreja e diz: “Aqui mesmo, debaixo da pedra grande, enterraram-se quatro de uma vez. Nem caixão tinha.”
Sabor a serra
Não há restaurante, nem tasca, nem “espaço gastronómico”. Há é gente que te convida para dentro de casa, oferece um bocado de pão de forma com requeijão e manda vir o vinho do ano passado. O queijo é Serra da Estrela, claro, mas não é para selfies: é para comer à colher, antes que fique frio. O borrego vai ao forno de lenha domingo de manhã; leva só sal, alho e um ramo de salsa que a Maria foi buscar ao quintal. A batata vem da horta, o vinho do Dão vem em garrafões de cinco litros e a sobremesa são bolachas Maria molhadas no café. Quando te levantas da mesa, ainda tens a mancha de azeite na ponta da camisa: é assim que se sabe que foi bem.
Caminhar entre aldeias
O trilho oficial tem placas novas e ruído de impressora. Esquece. Pega na estrada de Cortiçô para Vila Chã, desce até ao ribeiro, sobe outra vez pelo atalho do moinho e fica de olho nos muros: há roseiras silvestres, um ninho de melro e, no fim de Maio, um cheiro a silva tão doce que dá vontade de morder a planta. São 3 km, mas demoram o tempo de um café: porque vais parar, porque o cão do Caseiro vem cheirar as tuas botas, porque a paisagem não grita — sussurra. Leva garrafa, leva capa e leva o telemóvel no silêncio: aqui o GPS engana-se às vezes e a bateria acaba antes da vontade de ficar.
Ao entardecer, o sino toca outra vez. Desta vez é só uma badalada, talvez duas. Não é para ninguém morrer, é só para dizer: “Está-se bem, por aqui.” E tu, se tiveres juízo, paras, sentas no degrau da igreja e deixas que o dia acabe sem plano nenhum. A noite chega de mansinho, traz o cheiro a lenha e o som de um trator que já não vai a lado nenhum. Fica mais um bocado. Amanhã o comboio de Figueiró Castelo Rodrigo faz a ligação a essa vida de pressa que tu trazes — mas hoje ainda não.