Artigo completo sobre Infias: Pedra, Altitude e Silêncio na Beira Alta
Freguesia de Fornos de Algodres onde o granito aquece ao sol e 262 habitantes vivem a 618 metros
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O granito aquece ao sol da tarde. Em Infias, a 618 metros de altitude, o ar chega fino e seco, cortante nas manhãs de Janeiro, denso de resina e terra nos dias compridos de Agosto. As casas alinham-se baixas, telha sobre pedra, janelas pequenas que guardam o calor. Duzentos e sessenta e dois habitantes distribuem-se por 278 hectares, espaço suficiente para que o silêncio se instale entre as construções e o som de uma porta a fechar ecoe pela Rua do Centro.
A geografia do sossego
Infias partilha da condição de Fornos de Algodres — suspenso entre a planície da Beira Baixa e a serra. A densidade populacional — 94 habitantes por quilómetro quadrado — significa isto: espaço entre as coisas, distância entre o vizinho e tu, ar que circula sem obstáculos. Vinte e sete crianças correm ainda pelos caminhos de terra batida que ligam o Largo da Igreja à Escola do Centro; cinquenta e seis idosos conhecem cada pedra pelo nome. O equilíbrio demográfico pende para a memória, mas há vida que resiste, teimosa como o musgo na parede norte das ruínas do Pombal.
Dois monumentos classificados como Imóvel de Interesse Público pontuam a freguesia. A Igreja de São Tiago, com a sua fachadeira maneirista de 1593, e o Cruzeiro de 1784, erguido no adro onde se juntavam os fieis nas procissões de Quarta-feira de Cinzas. Não são catedrais, não exigem bilhete nem fila de espera. São presenças discretas, arquitetura que cresceu da necessidade e do tempo, pedra talhada por mãos que já não voltam. Passas por eles como quem cumprimenta um conhecido — sem pressa, com respeito.
Sabor a altitude
A gastronomia de Infias bebe da Beira Alta e da proximidade à Serra da Estrela. O Queijo Serra da Estrela DOP é presença obrigatória, pasta amanteigada de leite cru de ovelha Bordaleira, curado em caves onde a humidade e a temperatura obedecem a leis antigas. O Requeijão Serra da Estrela DOP serve-se fresco, ligeiramente ácido, companhia perfeita para o pão de centeio do forno da Dona Amélia. O Borrego Serra da Estrela DOP e o Cabrito da Beira IGP chegam à mesa assados, carne que conheceu pasto de altitude e água fria do Ribeiro de Infias. A região vinícola do Dão fornece os tintos que acompanham — vinhos de corpo médio, taninos polidos, acidez que limpa o palato entre garfadas.
Ritmo interior
Não há multidões em Infias. O nível de aglomeração é mínimo, a logística exige algum planeamento — não se chega aqui por acaso, não há autocarros de turismo a despejar passageiros à porta. O último café, o "Infias", fecha às 20h. Quem procura este lugar procura precisamente isso: a ausência de ruído, a possibilidade de caminhar sem cruzar ninguém durante uma hora inteira, o luxo de ouvir os próprios passos na calçada irregular.
A luz muda ao longo do dia. De manhã, rasante, desenha sombras compridas nos muros de xisto. Ao meio-dia, vertical, apaga os contornos. À tarde, doura o granito e aquece a pele. Quando o sol desce atrás do Monte do Colcurinho, o frio instala-se depressa. É esse contraste térmico — o calor da pedra sob a palma da mão, o arrepio súbito quando a sombra avança — que fica na memória de quem por aqui passa.