Artigo completo sobre Juncais, Vila Ruiva e Vila Soeiro: três aldeias no vale
União de freguesias junto ao Mondego preserva memória medieval e traços do Caminho de Santiago
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O sol da manhã bate primeiro nas vinhas que o Mondego olha de lado, aquelas que ainda se agarram aos socalcos como quem não quer pagar renda. A três aldeias - Juncais, Vila Ruiva e Vila Soeiro do Chão - juntaram-se em 2013 por uma questão de logística administrativa, mas continuam cada uma na sua: Juncais olha para o rio, Vila Ruiva para a estrada, Vila Soeiro do Chão para o campo. São 553 almas espalhadas por um território onde o tempo se mede em socalcos e o vento traz sempre cheiro a terra ou a fumeiro.
Três nomes, um café
Juncais aparece num papo do Papa João XXII em 1320, mas o que interessa é que ainda hoje os juncos crescem onde a água do Mondego faz charco - é ali que as vacas vão para a sombra quando o verno aperta. A Casa da Barata Veloso, essa gente com sobrenome de peixe, mandou-se aqui nos séculos XV e XVI e deixou a marca na forma como as terras estão divididas: parcelas miudinhas, muros altos, caminhos que parecem feitos por gente que bebeu um copo a mais. A freguesia andou de mão em mão - Linhares, Celorico, Fornos - como quem não sabe onde guardar as chaves.
A concha que ninguém vê
Na capela de Cadoiço há uma concha de vieira esculpida na pedra. Dizem que é do Caminho de Santiago, mas o que eu sei é que os peregrinos que cá paravam eram aqueles que se perdiam já a caminho de Almeida. A Igreja Matriz de São Tiago é do século XVI, com aqueles azuleijos brancos e azuis que fazem lembrar a loiça da minha avó. Em Julho faz-se festa - procissão, arraial, e o padre a tentar que as crianças não roubem os bolinhos da mesa do Santo. A ponte medieval de Juncais já não existe, mas os velhos dizem que as pedras foram parar às casas da aldeia. É assim: em terras pequenas, nada se perde, tudo se transforma em parede.
O que se come (e bebe) por cá
O queijo da Serra cheira a curral e a erva, o requeijão é daquele que escorre para o pão como promessa de felicidade. O borrego vai para o forno de lenha com batata e coentros - nada de inventar, a receita é da avó e ponto final. O vinho é do Dão, mas o bom é o que o vizinho faz nas costas da casa, aquele que só engarrafa para a família. Se aparecer por cá na época da matança, leve um prato de chanfana - mas não pergunte o que está na panela, isso é conversa para gente da cidade.
Para onde ir quando se está de pé
Não há trilhos marcados nem placas a explicar o óbvio. Mas se sair do café do Júlio e virar à esquerda na estrada de terra, chega a Vila Ruiva em 20 minutos. Olhe para os muros de pedra - são mais antigos que a democracia. Suba um bocado e veja o Mondego a fazer curva, aquele azul que parece pintado mas é mesmo água. Se for na romaria de São Brás, leve um casaco - é em Fevereiro e o vento corta como navalha. A tarde cai devagar, o sino toca para o angelus, e as ovelhas sabem o caminho de casa melhor que nós.