Artigo completo sobre Matança: Vila Medieval com Foral nas Terras da Beira
Do dólmen pré-histórico ao pelourinho medieval, a antiga vila de Matança guarda séculos de história
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O silêncio chega primeiro. Não o silêncio vazio das cidades à noite, mas o silêncio denso do planalto da Beira, onde o vento passa baixo sobre os matagais e o rio Carapito murmura entre pedras gastas por séculos. A 625 metros de altitude, Matança estende-se numa paisagem ondulada onde o granito aflora entre soutos e mato rasteiro, e onde o tempo se mede pelo ritmo das estações, não pelo ponteiro de um relógio. Aqui vivem 215 pessoas, mas o território guarda memórias de muito mais — de quando foi vila medieval com foral próprio, de quando o pelourinho erguido em granito marcava a autonomia administrativa que durou até 1836.
Pedras que falam de eras antigas
O Dólmen de Corgas ergue-se a quilómetro e meio da estrada municipal, monumento megalítico com quase quatro metros de altura e gravuras rupestres que resistem desde a Pré-História. Foi aqui que Leite de Vasconcelos conduziu algumas das primeiras escavações científicas em Portugal, no final do século XIX. A pedra fria ao toque conserva marcas de mãos que a trabalharam milénios antes do foral de D. Afonso III, concedido em 1270 e confirmado por D. Manuel I em 1514. Mais próxima do quotidiano actual está a necrópole medieval de Forcadas, onde 24 sepulturas escavadas na rocha entre os séculos VII e VIII repousam ao ar livre, testemunhas mudas de comunidades que aqui enterraram os seus mortos muito antes da primeira referência documental a Matança, no início do século XII.
Capela escondida, santos protectores
O pequeno trilho que liga Matança a Fonte Fria serpenteia entre muros de pedra solta e leva à Capela de Santa Eufémia, construção romano-gótica dos séculos XIII-XIV cujos cachorros de suporte do telhado exibem figuras mitológicas esculpidas. Santa Eufémia, padroeira dos males difíceis e das doenças de pele, recebe romeiros duas vezes por ano — a 16 de Setembro e na segunda-feira após a Páscoa. Os rebanhos sobem em procissão, o fumo das fogueiras mistura-se com o cheiro a terra molhada da primavera ou ao pó seco do final do Verão, e o lanche campestre estende-se pela encosta enquanto a feira decorre junto à ermida. Mais abaixo, junto à ponte medieval sobre o Carapito, a Capela de Nossa Senhora dos Milagres vigia o rio, e na igreja matriz de Santa Maria Madalena o retábulo barroco dourado reflecte a luz das velas.
Sabores da altitude
Nas adegas e fumeiros de Matança, os produtos da serra amadurecem com paciência. O Queijo Serra da Estrela DOP endurece lentamente, o Requeijão espesso conserva-se em potes de barro, e o Borrego Serra da Estrela e o Cabrito da Beira ganham sabor nas pastagens de altitude. Os vinhos do Dão, cultivados nestas encostas entre os 600 e os 700 metros, têm a acidez fresca das noites frias e o corpo dos dias longos de sol. O pão de milho esfria sobre toalhas de linho, as broas guardam-se para os dias de trabalho no campo, e os enchidos pendem nos fumeiros onde a lenha de sobreiro queima devagar.
A tarde cai sobre o pelourinho de Matança, e a sombra do granito alonga-se sobre a calçada irregular. Ao longe, o sino da igreja marca as seis horas — seis badaladas que ecoam sobre o vale do Carapito e se perdem entre os soutos. Um cão ladra numa quinta, alguém fecha a porta de um fumeiro. O fumo sobe direito no ar imóvel, cheirando a chouriça e a tempo acumulado em paredes de pedra.