Artigo completo sobre Arcozelo: Azenhas do Mondego e brasões de granito
Freguesia beirã entre os 300 e os 850 metros, com património setecentista e minas de quartzo rosa
Ocultar artigo Ler artigo completo
O som chega antes da imagem: o bater irregular da água contra as pás de madeira moída, um som que muda com as chuvas - às vezes forte, outras quase um sussurro. A azenha do Valinho ainda mói, mas já ninguém traz milho. É Setembro em Arcozelo e a luz da manhã desce rasante, aquecendo o granito onde as crianças se sentam para comer figos. Aos 367 metros de altitude, a aldeia dispersa-se por montes e vales, com o Mondego a fazer curva lá em baixo e o pinhal a subir até aos 850 metros. Quinhentas e setenta pessoas, mas nem todas cá vivem o ano todo.
Oito casais e seis libras de colheita
A primeira referência é de 1214, mas o que se guarda é a história que o padre José conta: como os monges de Grijó vinham cobrar o dizimo em galinhas e cestas de uvas. O Livro das Campainhas fala de oito casais - hoje são mais de duzentas casas, muitas fechadas até ao verão. No adro, o cruzeiro de 1649 tem um nicho onde as velhas punham velas para afastar a tempestade. Ainda se põe. A igreja de S. Miguel tem o cheiro habitual destas coisas antigas: cera derretida e granito húmido.
Talha, sino e quartzo rosa
O campanário mantém-se fechado desde que o João, o rapaz da junta, torceu o pé nos degraus partidos. Mas quem conhece o sacristão abre. Lá em cima, vêem-se as vinhas do Seixal, o telhado da casa onde o médico passa uma vez por mês, o regato que seca no Verão. Na Pedra Alva, a antiga mina de quartzo é agora um buraco cheio de água onde os miúdos se atiram de cabeça. A Capela de S. Paio tem a porta sempre aberta. Em Agosto, as "sete sopas" começam depois da missa - cada família traz o que tem, serve-se às colheradas directamente das panelas.
Enguias, rojões e pão de ló com casca de limão
O queijo vem do caseiro da Bica, que ainda ordenha à mão. As enguias compram-se ao Zé do Mangualde, que as pesca de madrugada. A receita do caldeirada é da Dona Albertina: primeiro faz-se um refogado com banha de porco, depois o vinho branco do quintal. Os rojões levam um dia inteiro a marinar no alho e louro do quintal. O pão de ló da Tia Emília não é dos que sobem muito - é denso, molhadinho, com limão do limoeiro que sobrevive aos Invernos rigorosos. O folar de São Miguel leva mesmo chouriço caseiro; quem não gosta de carne, come às fatias do meio.
Trilho, kayak e miradouro ao pôr do sol
O Trilho dos Moinhos começa no portão da Quinta do Viso, onde o cão Lobo ladra mas não morde. Oito quilómetros que passam onde o António plantou mirtilos - hoje são os netos que os vendem em julho. No verão, o Mondego tem praias de areia fina onde as crianças aprendem a nadar. O kayak é do clube de Mangualde, mas quem tem canoa própria põe-na à água na rampa do calvário. O miradouro do Viso não tem placa nem parapeito. É ali que os jovens vão beber umas imperiais ao pôr do sol, sentados no muro frio, com as latas a rolar pelo chão de terra.
Quando a noite cai, o silêncio é ruidoso: grilos, o sino das nove horas, um tractor a aquecer na garagem do Manel. Às vezes ouve-se música brasileira na casa onde os brasileiros trabalham na fruta. O Mondego corre lá em baixo, sempre, mesmo quando ninguém o vê.