Artigo completo sobre Moimenta da Serra e Vinhó: Granito e Vinhas na Serra
Duas aldeias unidas pela pedra e pela vinha, entre socalcos e memórias gravadas no Geopark Estrela
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Al caer la tarde, el humo de las chimeneas sube recto, trazando en el aire el mapa de las casas que aún tienen gente. El olor a leña de roble se mezcla con el de la chorizo que Ventura ahumó en diciembre — y que ahora va saliendo en rodajas, siempre acompañado de un “lleve otro trocito, hombre”.
O granito aquece ao sol da tarde como uma chávena de café que ainda não arrefeceu. Em Vinhó, as paredes são de pedra que veio daqui a sete palmos — não há mistério, é só ir ao sítio onde o António corta e ver o buraco que ficou. A 516 metros, o vale parece uma escada de gigante feita de muros de pedra: cada degrau é um socalco, cada socalco é uma vinha que aguenta com o que o céu der e o granito esconder.
Duas aldeias, uma geografia
Uniram as freguesias em 2013, mas quem vive aqui continua a dizer “vou a Moimenta” ou “desço a Vinhó” como quem vai ao café da esquina. Moimenta tinha antes mais lojas que agora; Vinhó, mais vinha que ninguém. As duas continuam com a mesma dor de costas: a serra atrás, o vale à frente, e uma estrada nacional que traz quem vem e leva quem se vai.
Dos 1071 que aqui estão, 426 já têm idade para recordar o tempo em que o comboio parava em Gouveia. Dos 130 jovens, metade só aparece no fim-de-semana. As casas vazias são tantas que o INE até perdeu a conta; as que foram recuperadas para turismo têm agora nomes de flor — mas o granito é o mesmo granito, só que com ar condicionado.
Pedra que reza
A igreja de Moimenta é do século XIX e tem a porta grande para quando o funeral é de gente conhecida. As capelas é que guardam o grosso da fé: a Senhora do Porto, onde as mulheres iam em procissão pedir chuva; São Sebastião, que durante a peste recebeu promessas que ainda hoje se cumprem; São Pedro e a Trindade, que servem para os baptizados e os desgostos mais pequenos. No largo de São Sebastião, a junta funciona numa casa que já foi escola: ainda se vê o lugar onde o professor punha a vara.
Sabor que vem da serra
O queijo é o mesmo que se come em Lisboa, só que aqui não vem embrulhado — vem na mão do Zé, que o tira da salga e pergunta “quer provar?” antes de cortar um bocado. O borrego e o cabrito são filhos das pastagens onde a urze e o tojo fazem o trabalho dos temperos. O vinho é outra conversa: há quem diga que o Dão começa aqui, mas o que importa é que, em Outubro, o cheiro a mostro impregna a aldeia inteira e até o cão do café já anda tonto. Se quiser visitar uma adega, bata à porta daquelas que tem a tampa de ferro ao lado — é sinal que há pipa e que há conversa.
Caminhar onde o granito aflora
Os trilhos não têm nomes pomposos: é o caminho da fonte, o da oliveira mirrada, o que vai dar à bica onde as crianças se atiravam no Verão. O Geopark até mete placas, mas o pessoal continua a chamar-lhes “as pedras do costume”. Subindo, aparecem blocos do tamanho de camiões — a lenda diz que são de gigantes, a geologia diz que são de gelo; tanto dá, o importante é que servem de mesa para o pic-nic. Quando o nevoeiro desce, o melhor é parar: ouve-se a ribeira como se fosse ao lado e, se tiver sorte, um javali a remexer na azenha.
Ao cair da tarde, o fumo das lareiras sobe direito, traçando no ar o mapa das casas que ainda têm gente. O cheiro a lenha de carvalho mistura-se com o da chouriça que o Ventura fumou em Dezembro — e que agora vai aparecendo às fatias, sempre acompanhada de um “leve mais um bocadinho, ó homem”.