Artigo completo sobre Paços da Serra: altitude, granito e queijo DOP
Aldeia a 803 metros na Serra da Estrela onde os fornos comunitários ainda fumegam ao amanhecer
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O cheiro a lenha de carvalho atravessa a Praça do Coreto antes de ver o fumo. Alguém acendeu o forno comunitário ao romper do dia. O aroma mistura-se com o frio húmido que desce da serra e se prende aos muros de granito. A 803 metros de altitude, Paços da Serra acorda devagar. O sino da Igreja Matriz bate as sete. O eco percorre o vale do Mondego. Ouvem-se os primeiros balidos no curral das bordaleiras.
A memória inscrita na pedra
A freguesia existe desde o século XIII. "Paços" evoca as casas senhoriais. "Serra" marca a porta de entrada para a Estrela. A Igreja Matriz, manuelina-barroca, guarda um retábulo de talha dourada e azulejos que contam a vida da Virgem. A Capela de Nossa Senhora da Saúde fica mais acima. A Ermida de São Brás, no Alto da Senhora do Monte, vigia o vale. A campânula foi fundida em 1640 com bronze de canhões capturados aos espanhóis. Toca nas manhãs de festa.
A Casa do Povo é o coração económico da aldeia. O edifício popular tem varanda em madeira. Funciona como centro de interpretação. Organiza workshops de coalhada com cardo. Serve queijo Serra da Estrela DOP. Maria da Conceição Lopes produziu-o durante décadas. Recebeu o Prémio Nacional de Artesanato em 1985. O requeijão cremoso, o borrego estufado com batatas de enxofre, o cabrito assado com azeite da Beira Interior DOP: tudo aqui repete gestos antigos.
Água, pedra e altitude
A nascente do Mondego fica a cinco quilómetros. A ribeira da Lajeada atravessa a aldeia. Alimenta o moinho de água recuperado. Um dos últimos testemunhos dos 48 que funcionavam em 1864. A roda range. A água cai em cascata sobre a pedra de moagem. No Poço do Inferno, a cascata congela no inverno. Forma uma cortina de gelo de vinte metros. Atrai escaladores.
O Geoparque Estrela classifica os afloramentos de xistos negros e quartzitos. A paisagem mistura urze, giesta e carqueja. Sobreiros e soutos de castanheiro centenários. 65 árvores declaradas de interesse público. O conjunto mais antigo do Parque Natural.
O PR 5 "Rota das Faias" percorre doze quilómetros até à cascata da Ribeira de Loriga. Do miradouro do Alto da Senhora do Monte, a 1050 metros, vê-se a serra da Gardunha e o vale do Mondego. Gatos-bravos, doninhas, corços, milhafres-reais e melros-azuis habitam aqui.
Ciclos que se repetem
A Festa de Nossa Senhora da Assunção é no terceiro domingo de agosto. Tem procissão, missa campal e concurso de queijos. Em outubro, a Desfolhada da Serra reúne vizinhos para debulhar milho. Ao som de concertinas. A noite termina com sopa de nabos e vinho do Dão. No primeiro domingo de maio, o Dia do Pastor bênção os rebanhos. Demonstração de ordenha e concurso de cães de pastoreio. Durante o Ciclo do Natal, grupos cantam os Reis. Recebem bolo de laranja e água-pé. Na noite de São João, as Fogaceiras dão pão doce com erva-doce. Na Pentecostes, a Procissão dos Cavalos leva animais ornamentados até à igreja.
Ao cair da tarde, o sol incendeia as fachadas caiadas. O fumo do forno já se foi. Resta o murmúrio da ribeira e o tilintar dos chocalhos no pasto. O frio aperta. Alguém fecha uma janela de madeira gretada. Uma candeia acende-se lá dentro.