Artigo completo sobre Ribamondego: onde o xisto encontra a Serra da Estrela
Freguesia serrana em Gouveia com 262 habitantes, vinhas do Dão e produtos DOP certificados
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O cheiro a lenha queimada sobe das chaminés assim que o sol desce atrás do Monte do Colcurinho. Ribamondego, a 395 metros de altitude, agarra-se à encosta como quem tem medo de escorregar para o Mondego — são 7 km² de pedra e lameiro onde o xisto aparece nu nas margens do ribeiro, entre silvas e tamargueiras. Vivem aqui 262 pessoas, mas no Inverno parecem menos: as casas fecham-se cedo, só o sino da igreja de S. João Baptista marca as horas, e o vento que desce da serra leva as vozes pelos vales abaixo.
Onde a terra dita o ritmo
O queijo não se faz para vender — faz-se porque a leiteira chega às 7h e tem de se fazer alguma coisa com tanto leite. Na adeira, entre paredes grossas de xisto, o Serra da Estrela DOP está a ficar liso, aquele sabor a ervas que só se apanha onde os bordaleiros pastam entre os medronheiros. O borrego que se come à Páscoa é o mesmo que se viu a pastar atrás da casa — come erva-queimada e tojo, e isso nota-se na carne. Nos fumeiros, os chouriços e as alheiras fumam-se com carqueja e zambujeiro. O pão vai à padaria de Videmonte, porque a de Ribamondego fechou há anos.
O peso dos números
Trinta e sete crianças. Cento e doze idosos. A escola tem duas salas abertas — uma para o 1.º ciclo, outra para o ATL. Quando chove, a água entra pela porta fora e há que pôr trapos no chão. A densidade populacional diz-se 34,7 por km², mas isto é treta: há dias em que não se cruza ninguém na estrada principal. As casas devolutas são mais de trinta — algumas já só têm paredes, outras ainda têm cortinas à janela, como se alguém pudesse voltar. A única moradia de alojamento local é a casa do Sr. António, que tinha os filhos emigrados e decidiu abrir quartos para "ver se a malta vem cá parar". Não há hotéis, nem cafés, nem mercearia — a última fechou quando a Dona Alice foi viver com a filha para Lisboa.
A água do ribeiro é tão fria que dói nos dentes, mesmo em Agosto. Quem se atreve a molhar os pés sente logo o formigueiro nos tornozelos — é o frio da serra que desce pela pedra abaixo, sem nunca tocar no sol. À noite, as estrelas sobrepõem-se umas às outras, tão perto que parecem pesar no telhado.