Artigo completo sobre Rio Torto e Lagarinhos: onde a ribeira serpenteia a serra
Duas aldeias unidas pela água, pelos lagares antigos e pelos sabores certificados da montanha
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O murmúrio da ribeira chega antes de se ver a água. É um som constante que acompanha os passos pelas aldeias desta união de freguesias — Rio Torto e Lagarinhos — onde o nome do rio descreve exactamente o que faz: serpenteia, torce, contorna o relevo. A 422 metros de altitude, entre os quase dois mil hectares que se estendem nas encostas do Parque Natural da Serra da Estrela, o território respira a um ritmo ditado pela água, pelo pastoreio e pelas estações.
Rio Torto deve o nome à ribeira que o atravessa. Essa geografia sinuosa moldou os caminhos, as pontes de pedra, os campos estreitos que se encaixam entre margens. Lagarinhos guarda na toponímia a memória dos lagares onde se prensavam uvas e azeitonas. A fusão administrativa de 2013 juntou oficialmente o que a paisagem já unia — duas aldeias que sempre partilharam o mesmo horizonte serrano, o mesmo frio cortante de Janeiro, a mesma luz dourada de Setembro sobre os montes.
Aqui vivem 745 pessoas. A população envelheceu — 247 idosos para 60 jovens — mas isso significa que o conhecimento se concentra: quem sabe fazer queijo à mão, quem conhece os trilhos de memória, quem distingue o som do vento que anuncia neve.
O Queijo Serra da Estrela DOP amadurece em adegas frescas, com aquela textura amanteigada que só a cura lenta proporciona. O Requeijão Serra da Estrela DOP, cremoso e ligeiramente ácido, espalha-se no pão ainda quente. Nos dias de festa, assa-se Borrego Serra da Estrela DOP ou Cabrito da Beira IGP. O azeite — Azeite da Beira Alta ou Azeite da Beira Baixa DOP — corre generoso sobre batatas cozidas, sobre couves. O vinho tinto robusto acompanha as refeições, com aquele travo mineral que lembra o granito dos socalcos.
A inserção no Parque Natural da Serra da Estrela e no Geopark Estrela da UNESCO é identidade. Os trilhos cruzam vales e cumeadas, passam por afloramentos rochosos que contam milhões de anos de história geológica, atravessam bosques de carvalhos onde o silêncio só é quebrado pelo estalar de um ramo. A ribeira oferece margens frescas no Verão, ideais para uma pausa à sombra dos amieiros, enquanto a água corre transparente sobre seixos rolados.
Há um monumento classificado como Imóvel de Interesse Público algures neste território. As cinco moradias de alojamento turístico disponíveis são portas abertas para quem quer conhecer o lugar sem pressas, acordar com o canto do galo, sentir o frio da madrugada antes de o sol aquecer as fachadas caiadas.
Caminhar por Rio Torto e Lagarinhos é perceber que a densidade baixa — 38 habitantes por quilómetro quadrado — não significa vazio, mas espaço. Espaço para o gado pastar, para os lameiros reverdecerem na Primavera, para o fumo das lareiras subir direito no ar parado de Dezembro. É ouvir o badalar de um sino ao longe, cruzar-se com alguém que cumprimenta pelo nome, ver as hortas geometricamente divididas onde crescem couves, nabos, feijão verde.
Quando a tarde cai e as sombras das serras se alongam sobre os telhados de telha castanha, fica o cheiro a lenha queimada e a terra húmida que sobe dos campos recém-lavrados.