Artigo completo sobre Vila Nova de Tazem: onde o granito encontra o Mondego
Freguesia serrana de Gouveia entre queijos DOP, rebanhos e tradições que resistem ao tempo
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O cheiro a lenha queimada sobe das chaminés quando o sol ainda não venceu o frio da manhã. Vila Nova de Tazem acorda devagar, ao ritmo de quem conhece o peso do granito sob os pés e o som da água que desce das encostas da Serra da Estrela. Aqui, a 462 metros de altitude, o vale do rio Mondego desenha a paisagem enquanto as casas se agarram à encosta como quem sabe que o inverno não perdoa.
A freguesia vive entre dois mundos: o da montanha que a protege a norte e o do vale que a alimenta. São 1595 hectares onde pastam os rebanhos que dão origem ao Queijo Serra da Estrela DOP e ao Borrego Serra da Estrela DOP, produtos que carregam o sabor desta terra de pastos altos e invernos rigorosos. O Requeijão Serra da Estrela DOP, cremoso e ligeiramente ácido, ainda se faz à mão nas poucas quintas que restam, numa tradição que passa de geração em geração, mesmo que os jovens sejam hoje apenas 154 entre uma população de 1469 habitantes.
A mesa que fala da serra
A gastronomia aqui não é ornamento — é sobrevivência transformada em arte. O Cabrito da Beira IGP assado em forno de lenha, a carne macia que se desfaz ao toque do garfo, o molho denso onde o alho e a banha se fundem. Os Azeites da Beira Interior DOP, de cor verde-dourada e sabor frutado, temperam as sopas grossas que aquecem as noites de Inverno. Nas adegas, os vinhos da região do Dão envelhecem em garrafas empoeiradas, tintos encorpados que pedem queijo curado e conversa lenta.
A densidade populacional de 92 habitantes por quilómetro quadrado significa isto: há espaço para o silêncio. Há quintais onde ainda se cultiva a batata e a couve, há caminhos de terra batida que levam a nascentes de água fria, há um monumento classificado como Imóvel de Interesse Público - a Igreja Matriz de Vila Nova de Tazem, reconstruída após o terramoto de 1755, que testemunha séculos de presença humana nestas encostas. Mas o verdadeiro património não está apenas nas pedras oficialmente reconhecidas — está nas paredes de xisto dos socalcos, nos muros que seguram a terra, nos fumeiros onde a carne de porco se transforma em chouriço e presunto.
Entre o vale e a serra
Integrada no Parque Natural da Serra da Estrela e no Geopark Estrela, classificado pela UNESCO em 2020, Vila Nova de Tazem é porta de entrada para percursos que sobem até onde a vegetação rasteira substitui os carvalhos. O granito aflora por todo o lado, modelado por milénios de gelo e vento, contando uma história geológica que começou há 300 milhões de anos. As quatro unidades de alojamento — entre estabelecimentos de hospedagem, moradias e quartos — oferecem o básico: um teto, uma cama, o pequeno-almoço com pão caseiro e compota de abóbora.
Os 475 idosos que representam quase um terço da população são a memória viva deste lugar. São eles que sabem quando plantar, quando colher, quando matar o porco. São eles que ainda distinguem as nuvens que trazem chuva das que apenas ameaçam. E são eles que, sentados ao sol da tarde junto às portas, acenam a quem passa, perpetuando um gesto que não precisa de palavras.
A noite cai cedo no Inverno. As luzes das casas acendem-se uma a uma, pequenos pontos amarelos contra o azul-escuro da montanha. Lá dentro, o lume crepita, o queijo cura na cozinha, e o vinho espera na mesa. Vila Nova de Tazem não promete espetáculo — oferece substância. E isso, nestes tempos, já é raro.