Artigo completo sobre Manteigas: onde o Zêzere desce da serra a correr
Transumâncias, queijo de fumeiro e pão de centeio nos vales gelados da Estrela
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O fumo sobe direito dos telhados de xisto antes de o sol romper a crista da serra. No vale, o Zêzere corre com a pressa de quem desce de mil e duzentos metros, e o ar frio da manhã traz o cheiro a lenha de carvalho misturado com o aroma acre do queijo a curar nos fumeiros. Manteigas acorda devagar, ao ritmo dos sinos de Santa Maria que ecoam nas encostas — três badaladas lentas, o mesmo som que marcou as transumâncias durante séculos.
A freguesia deve o nome ao latim mantica, a manteiga que os pastores fabricavam nos currais de altitude. Aqui, a economia sempre se fez de lã cardada, rebanhos e queijarias. O foral manuelino de 1514 fixou a povoação junto ao rio, mas foi o ciclo secular das transumâncias — a subida dos rebanhos à Serra no estio, o regresso aos vales no inverno — que moldou o calendário e a alma do lugar. Ainda hoje, em Janeiro, a Ceia das Transumâncias recupera essa memória à mesa, com chanfana de bode cozinhada em panela de barro durante horas, até a carne se desfazer ao toque do garfo.
O granito e a fé
A Igreja matriz de Santa Maria ergue-se no largo central, retábulo maneirista dourado a contrastar com as paredes caiadas de branco. Mais acima, quase escondida entre pinhais, a Capela de São Lourenço guarda pedra românica do século XIII — uma das mais antigas testemunhas da ocupação cristã nestas alturas. A Ponte de São Lourenço, em granito cinzento polido pelas cheias, liga as duas margens do Zêzere com arcos medievais que rangem sob os pneus dos carros. Nos dias de nevoeiro, quando a humidade embacia as pedras, é fácil imaginar os mercadores de lã a atravessá-la com mulas carregadas.
O Museu do Pão ocupa antigos moinhos recuperados junto à ribeira, onde as mós de pedra ainda rodam movidas pela água. Nas oficinas de pão de centeio, a massa cresce devagar, fermentada com fermento natural e cozida em forno a lenha — o mesmo processo que alimentou gerações de pastores antes de subirem à Torre. O aroma a crosta torrada invade a sala, quente e denso.
Borrego, queijo e o Zêzere
A gastronomia assenta no Borrego Serra da Estrela DOP, assado em espeto de esteva durante a Festa do Borrego no fim-de-semana de Pentecostes. As brasas de esteva — arbusto aromático que cobre as encostas — dão à carne um travo resinoso impossível de replicar. Na Queijaria do Pastor, o Queijo Serra da Estrela DOP cura em prateleiras de madeira, vigiado pelo queijeiro que o vira e unta com azeite todas as semanas. O requeijão fumado, cremoso e ligeiramente ácido, serve-se com broa ainda morna.
As sopas de nabos e favas com toucinho fumado aquecem as noites de Inverno, quando a neve cobre os telhados — em 1954, durante 42 dias consecutivos, segundo a crónica paroquial. A truta grelhada vem do Zêzere, capturada nas poças fundas onde a água corre mais devagar, e chega à mesa com azeite, alho e coentros.
Vale glaciário e céu escuro
O trilho PR1 desce o Vale do Zêzere até ao Poço do Inferno, cascata de trinta metros que se lança sobre blocos erráticos deixados pelos glaciares do Quaternário. O caminho serpenteia entre pinhais negros e urzais roxos, e o som da água cresce à medida que a queda se aproxima. No Verão, a espuma fria salpica os rostos de quem se aventura até à base. Do Miradouro do Calvário, a vista alcança o cânion do Zêzere até Valhelhas — uma fenda verde rasgada no granito.
À noite, longe da poluição luminosa, o céu sobre Manteigas revela a Via Láctea com uma nitidez rara. O planalto do Alvoco, acessível de 4×4, é ponto de observação astronómica certificado Dark Sky, onde o silêncio da altitude só é quebrado pelo vento nas pedras.
Memória viva
Padre António de Andrade, nascido nestas terras no século XVII, foi o primeiro europeu a entrar no Tibete e a celebrar missa em Lhasa. Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque, militar e administrador colonial, viu a luz do dia em Manteigas em 1855. São nomes gravados em placas de mármore na Casa das Obras, onde o Museu de Arte Sacra expõe casulas bordadas a ouro e cálices do século XVI.
Quando a tarde cai e o sol rasante incendeia as fachadas de granito, o vale enche-se de sombras azuladas. Da janela da Tasquinha da Serra sobe o cheiro a chanfana e a lenha. Lá fora, o Zêzere continua a correr — frio, insistente, carregando consigo séculos de neve derretida e histórias de pastores que ainda sabem ler o céu antes da tempestade.