Artigo completo sobre Longroiva: Águas Termais e Memórias de Concelho
Termas sulfurosas, castelo medieval e tradições culinárias nas encostas da Mêda
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O vapor sobe das águas sulfurosas em fios brancos que se dissolvem no ar da manhã. Cheira a enxofre e a pedra molhada, um odor mineral que se cola à pele e que os visitantes das Termas de Longroiva aprenderam a associar ao alívio — das articulações, dos pulmões, do peso que trazem de fora. O edifício balnear do século XIX mantém-se ali, junto à Ribeira de Longroiva, desde que a Academia das Ciências estudou estas águas em 1821 e as recomendou para afecções respiratórias. A tradição local garante que a Rainha Santa Isabel terá mergulhado numa tina com esta água quando seguia para Trancoso, mas o que importa mesmo é o silêncio denso que envolve o balneário — só o murmúrio da ribeira e o ruído lento da água a correr pelas torneiras de bronze.
O que resta de uma vila-sede
Longroiva foi concelho durante sete séculos. Entre 1120 e 1836, administrou Chãs de Longroiva, Santa Comba, Fonte Longa e a própria vila, que em 1801 chegou a ter mil e quinhentos habitantes. Hoje restam duzentos e dezoito. O Castelo, Monumento Nacional de origem medieval, ainda domina a encosta com as suas muralhas de xisto escuro. Ao pôr do sol, a pedra aquece e devolve a luz num tom ferrugem que contrasta com o verde-escuro dos olivais no vale. Dentro da vila, a Igreja Paroquial guarda retábulos dedicados a Nossa Senhora do Torrão, padroeira cuja romaria, no domingo mais próximo de 8 de setembro, ainda traz procissão, missa campal e arraial às ruas calcetadas. As poucas casas que restam encostam-se umas às outras como quem tem medo do vento.
Fumo, borrego e tigeladas
A chanfana de cabrito coze em panela de barro durante horas, até a carne desmanchar ao toque do garfo. O borrego Terrincho DOP, criado nas encostas que rodeiam a vila, aparece em ensopado ou assado no forno de lenha, acompanhado de migas com couves e feijão pinto. No outono, a sopa de castanhas aquece as noites frias, e os enchidos fumados — chouriça, alheira, morcela — pendem dos fumeiros como esculturas negras pelo tempo. As tigeladas de Longroiva, doce de ovos cozido em tigela de barro, dividem a mesa com biscoitos de amêndoa Douro DOP e queijadas de requeijão. O vinho da Beira Interior, tinto encorpado ou branco fresco, e o azeite da Beira Alta DOP completam a refeição no restaurante O Cimo ou no hotel rural das termas. Quem cozinha são sempre as mesmas mãos que nos cumprimentam à porta.
Trilhos e muralhas
O Trilho do Castelo desenrola-se por três quilómetros entre a muralha medieval e a capela de São Sebastião, no alto da encosta. O caminho cruza soutos onde as folhas secas estalam sob os pés, olivais centenários de troncos retorcidos, vinhas que em setembro se cobrem de cachos negros. A Ribeira de Longroiva corre lá em baixo, alimentando pequenos arrozais e zonas húmidas onde gralhas e poupas se movem entre os juncos. Este trilho integra-se na Rota dos Castelros e no Caminho Interior de Santiago, que segue para Fonte Longa deixando marcas amarelas nas pedras de granito. No inverno, quando chega o Fogo do Senhor São Sebastião a 20 de janeiro, os habitantes reúnem-se à volta de fogueiras para benzer os campos — ritual que o frio torna ainda mais necessário. As pedras do castelo guardam o calor do dia como quem guarda segredo.
O cheiro a lenha queimada persiste na roupa horas depois de se deixar a fogueira. Mistura-se ao vapor sulfuroso das termas, ao azeite quente da fritada de fígado, ao musgo húmido das muralhas do castelo. Longroiva não se vê — respira-se, devagar, até os pulmões se encherem de Beira Interior.