Artigo completo sobre Marialva: barco de granito ancorado no planalto da Beira
Cidadela medieval com 177 habitantes, muralhas iluminadas e cisterna húmida no coração de Mêda
Ocultar artigo Ler artigo completo
O silêncio chega primeiro. Antes da muralha, antes da torre, antes de qualquer placa ou explicação, há um silêncio espesso que se instala entre os blocos de granito cinzento e a erva rala que cresce nas juntas. Os passos na calçada irregular ecoam contra paredes que já não sustentam telhados, e o vento — constante, seco, com um travo a poeira de terra e mato rasteiro — percorre a cidadela como se fosse o último habitante a cumprir ronda. Estamos a 590 metros de altitude, num planalto onde vivem 177 pessoas, 60% das quais já passaram dos 65 anos. A aritmética é impiedosa: desde 1864 que a população não para de cair, mas há algo nestes números que explica a quietude radical do lugar.
A forma de um casco sobre a planura
Vista de longe, sobretudo à noite quando a iluminação artificial recorta o perfil das muralhas contra o céu escuro, a cidadela projecta a silhueta de um barco. Um barco de granito fundeado num mar de amendoeiras e vinhas, com a Torre de Menagem a servir de mastro. Lá dentro, o Pelourinho quinhentista ergue-se no terreiro como uma coluna vertebral de uma vila que já não existe mas que se recusa a desaparecer. Ao lado, a boca escura da Cisterna abre-se no chão — se te inclinares, o ar que sobe de dentro é húmido e frio, um hálito mineral que contrasta com o calor seco da pedra ao sol. O Paço do Alcaide mostra as suas paredes truncadas, e a Cadeia mantém a solidez ameaçadora de quem já prendeu e já libertou. Tudo isto dentro de um perímetro que D. Afonso Henriques reconheceu com foral em 1179, e que D. Dinis animou um século depois ao conceder, em 1286, o privilégio de feira mensal — o mesmo que ainda hoje justifica a feira anual de 25 de Julho.
Onde Santiago cruza Maria Alva
A Igreja Matriz de Santiago, encostada à torre, guarda a memória do apóstolo peregrino — e não por acaso. O Caminho Interior da Via Lusitana para Santiago de Compostela passa por aqui, assinalado com as conchas amarelas que marcam o traçado. Quem o percorre encontra em Marialva um posto de apoio onde o peso da mochila se torna secundário face ao peso da história. Mais abaixo, já fora das muralhas, a Igreja Matriz de S. Pedro e a Casa do Conde compõem o núcleo da vila baixa, onde as ruas medievais restauradas da Corredoura se estendem em lajes gastas pelo uso de séculos. A capela do Senhor dos Passos fica junto à torre, discreta, e a de Nossa Senhora de Lurdes espreita para fora da cerca muralhada.
O nome da aldeia, dizem, vem de uma donzela — Maria Alva — que terá saltado da torre do castelo. A lenda não explica se foi desespero ou desafio, mas o topónimo ficou, e com ele uma ressonância que atravessou gerações até gerar outra associação inesperada: a "arte de Marialva", a arte de cavalgar e tourear, baptizada assim por causa do 4.º Marquês, D. Pedro de Noronha Coutinho (1694-1771), mestre equestre e autor de "Carta de Lei da Tauromaquia" (1756). O condado fora criado em 1441, o marquesado no século XVII, e entre os seus titulares contou-se D. António Luís de Menezes, herói da Guerra da Restauração, que comandou a vitória do Ameixial e a libertação de Évora em 1663.
Queijo, borrego e o calor lento do forno
Na mercearia "O Cantinho", a Dona Alda corta o Terrincho DOP com uma faca de cabo preto — o queijo tem 60 dias de cura, casca natural e massa amarela que se parte em lascas. O Borrego Terrincho DOP e o Cabrito da Beira IGP assam lentamente no forno de lenha do restaurante "O Celta", onde o Zé Manel ainda vai buscar carvalho aos bosques da Devesa. O azeite da Beira Interior DOP vem das oliveiras centenárias do Vale do Côa, e as amendoeiras que sustentam a Amêndoa Douro DOP florescem em Fevereiro com uma brancura que corta o cinzento do xisto. Os vinhos da Beira Interior — Quinta do Cardo, Figueira de Castelo Rodrigo — acompanham tudo isto com a estrutura que a altitude e o granito lhes conferem.
A Devesa e os caminhos que o planalto esconde
A 3 km da cidadela, as ruínas do Convento de Vilares — dedicado a Nossa Senhora dos Remédios, fundado em 1447 por D. Álvaro Gonçalves de Ataíde — emergem entre a vegetação como um esqueleto de fé abandonada. A imagem da Virgem foi transferida para Marialva em 1834, após a extinção das ordens religiosas, e hoje repousa na Igreja de Santiago. Mais perto, na Devesa, o solo guarda os vestígios da Civitas Aravorum romana, identificada por epigrafes encontradas em 1864 — uma cidade que os Túrdulos e depois os Lusitanos conheceram antes de Roma a reclamar. A paisagem é de ondulações suaves, campos agrícolas tradicionais abertos para vistas largas sobre os vales do Côa e do Douro — horizontes que se medem em dezenas de quilómetros, com camadas de azul e ocre sobrepostas como aguarelas mal secas.
As cantigas entre muralhas
Na noite de S. João, diz a tradição, ainda se evocam as cantigas trocadas entre a Moura de Marialva e o Mouro de Casteição — versos que atravessam o vale como um diálogo entre duas solidões. A Feira Anual, no dia de Santiago, a 25 de Julho, mantém vivo o privilégio medieval de D. Dinis: começa às 6h com o mercado de gado, segue-se a procissão às 10h, e à tarde há touradas com forcados de Penafiel. Paulo de Correa (1520-1587), célebre médico nascido na Rua da Corredoura, foi lente em Alcalá de Henares e chamado a Roma para tratar o Cardeal Henrique — prova de que este granito já exportou mais do que pedra.
Quando a feira acaba e o último autocarro das 19h30 desaparece na EN221, Marialva regressa ao que sabe fazer melhor. O sol desce sobre o planalto, a muralha aquece até ficar morna ao toque, e a sombra da Torre de Menagem alonga-se para leste como o ponteiro de um relógio deitado. Seis casas de turismo de habitação recebem quem decide ficar — são 23 camas no total. Ficam poucos — e é exactamente esse o ponto. Ao deitar, com a janela aberta, o único som é o vento a contornar o casco do barco de granito, como se o planalto inteiro fosse um mar calmo e Marialva navegasse, lenta e sem tripulação, para lado nenhum.