Artigo completo sobre Prova e Casteição: pedra, fé e memória na Mêda
Duas aldeias unidas desde 1948 guardam igrejas barrocas, casas senhoriais e romarias antigas
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A pedra da Casa Grande de Prova ainda guarda o calor quando o sol se vai embora. Aos 705 metros, o ar é seco e limpa a garganta — cheira a lenha queimada e a terra quente. No largo, os bancos de granito estão vazios. O silêncio só é partido pelo sino da Igreja Matriz: três badaladas que vão abaixo até Casteição, a dois quilómetros, como quem atira uma pedra ao vale.
Dois lugares, uma memória partilhada
Prova e Casteição juntaram-se em 1948, mas cada um tem o seu jeito. Prova agarra-se à ladeira, com a igreja no meio como quem segura o chapéu ao vento. A tal igreja quinhentista tem um retábulo joanino que, se lhe deres atenção, parece que vai começar a falar. A Casa Grande dos Lacerda, com aquela loggia italiana que não combina com nada, recebeu o Salazar em 37. Dizem que ele nem gostou muito — preferia coisas mais sérias.
Casteição é mais antiga, tem foral do século XII. A igreja dela é setecentista e tem um altar-mor com as armas de Portugal que o pessoal da Meda diz ser o mais importante do concelho. No último domingo do mês, a feira mensal traz umas bancas de queijo Terrincho, enchidos fumados e broas de milho. Não é o Colombo, mas dá para trocar umas impressões e levar umas castanhas para casa.
Romaria e ribeira
Na segunda-feira do Espírito Santo, vai-se todo mundo a pé até Nossa Senhora de Vila Maior. É uma ermida perdida no meio do nada, entre Casteição e Outeiro de Gatos. A procissão faz-se por caminhos de terra onde o mato já começou a reclamar o seu espaço. As ladainhas misturam-se com os melros — é como se a terra estivesse a cantar em duas vozes.
A Ribeira Teja separa as duas aldeias como quem traça uma linha à régua. Tem azenhas abandonadas e a Ponte dos Caniços, que range sempre que alguém passa — é o seu modo de dizer “olá”. O trilho que liga Prova a Casteição é parte do Caminho Interior de Santiago. São 45 minutos a pé, entre olivais retorcidos pelo vento e pastagens onde os borregos Terrincho olham para ti como quem pergunta “vai-se onde?”.
O sabor da altitude
À mesa, a chanfana vem em panela de barro e o cabrito sai do forno a lenha com uma cor que até faz inveja ao pôr do sol. O cozido de grão fumega ao lado do pão de centeio — é daquele que faz estragos na digestão mas cura a alma. O vinho é de trincadeira, encorpado como um bom desabafo. O Terrincho, esse é para comer às pedaços e deixar o paladar a lembrar que isto não é Lisboa.
Quando a noite cai, o largo de Prova fica deserta. Resta o murmúrio da ribeira, um gato a atravessar a rua e a luz amarela de uma janela na Casa Grande. É um sítio que não pede nada — só fica lá, quieto, como quem sabe que o tempo é seu e de mais ninguém.