Artigo completo sobre Rabaçal: Granito, Amendoeiras e Silêncio na Beira
Freguesia da Mêda onde a pedra molda a paisagem e 220 habitantes guardam tradições centenárias
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O granito está ali como quem não quer nada. Nos muros que nem muros são, mas sim montes de pedra onde os miosotis se agarram na Primavera. Na porta da casa do Zé Manel, que ainda tem a ombreira com a data de 1898 e o nome da mulher entalhado à pressa. Nos cruzeiros que marcam onde alguém morreu ou onde o diabo apareceu - depende de quem lhe conta a história.
Rabaçal é daqueles sítios onde o tempo foi esquecendo-se de passar. A 538 metros, o que significa que ainda não é alta montanha mas já se sente o ar da Serra na cara. As amendoeiras fazem aqui o que fazem em todo o lado - linhas brancas que parecem erros de impressão na paisagem. Os olivais são de um verde cansado, daqueles que já viram mto inverno.
O que se come quando ninguém está a ver
O Terrincho é mesmo terrincho - não vale a pena inventar. Vem das ovelhas churras que pastam onde não dá para plantar nada e tem aquele gosto a mato que os franceses pagam balúrdios em Paris. O borrego vai ao forno com ervas que a Maria da Luz guarda numa caixa de biscoitos Royal - mistura secreta que ela diz ter aprendido com a avó, mas toda a gente sabe que vem escrita no livro da Misericórdia.
O azeite é daqueles que fazem cócegas na garganta. Não é para usar em tudo - é para quando se quer saber que se está vivo. As amêndoas são daquelas que partem dentes mas depois compensam: torradas no forno da padaria, com mel do Nuno que deixou o emprego no Porto e voltou para pôr colmeias nas encostas. Diz que as abelhas gostam mais do ar daqui. Ou talvez seja ele que goste.
O vinho... epá, o vinho. Há quem diga que é a altitude, há quem diga que é o xisto, mas o certo é que o branco fica com aquela acidez que faz esgarçar a cara e o tinto tem corpo para aguentar um assado de domingo. Na adega do Joaquim ainda se prova à boca de jarro. Ele diz que é para não perder o jeito, mas toda a gente sabe que é porque os copos estão todos partidos.
Os caminhos que vão dar a lado nenhum
O Caminho de Santiago passa aqui como quem passa. Vêm uns quantos por ano, com aquela cara de quem já leva 200 km nas pernas e 400 na alma. As setas amarelas estão pintadas à pressa nos muros - algumas já foram apagadas pela chuva ou pelo tempo, mas como os caminhos são os mesmos de sempre, ninguém se perde.
A caminhada é daquelas que não explicações. Sobe-se um bocado, desce-se outro, e quando se está a pensar que já se chegou ao fim, há sempre mais uma curva. Mas as vistas compensam: dá para ver o Douro lá ao fundo, as aldeias que parecem brincar de esconde-esconde nos vales, e os campos divididos em parcelas como um puzzle de quem perdeu peças.
Ao fim do dia, quando o sol se põe atrás da Serra e as sombras começam a engolir tudo, Rabaçal fica com aquele ar de quem já viu muita coisa e pouca lhe impressiona. O cheiro a lenha queima misturado com o fumo das lareiras, o cão do António ladra para o vazio, e na mercearia ainda se está a conversar sobre o tempo - que vem aí chuva, dizem, mas já dizem isso há três semanas.
Não há grandes coisas para ver. Não há monumentos, não há miradouros com selfies, não há restaurantes com estrelas. Mas há aquele pão de milho que a D. Fernanda faz às quintas-feiras, há o café do Zé onde se bebe um bica que mantém acordado até às tantas, e há aquela paz que só se encontra nos sítios onde o tempo é um conceito relativo.
Vá quem quiser. Mas leve calçado bom e não vá com pressa. Em Rabaçal, quem tem pressa acaba por se sentar no chão da igreja e ficar ali a olhar para o nada - que é, no fundo, o mesmo que olhar para tudo.