Artigo completo sobre Ranhados: Aldeia de Granito a 813 Metros na Beira Alta
Freguesia serrana em Mêda onde o silêncio, a pedra e os produtos DOP definem o território
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O granito guarda o frio da noite como quem guarda segredo. Mesmo depois do nascer do dia, as paredes ainda estão geladas — percebe-se logo pela manhã, quando se apoia a mão na porta da padaria (que já nem existe). Ranhados fica a 813 metros, mas sobe-se tanto para lá chegar que parece mais. Aqui, o céio não é um sítio: é o que se vê quando se levanta a cabeça para espirrar. E a luz... a luz é daquele tipo que faz os olhos doerem, como quando se sai do cinema às três da tarde.
São 234 almas. Dá 9 por quilómetro quadrado, o que quer dizer que cada um pode esticar os braços sem bater no vizinho — e muitos dias isso é mesmo necessário. Dos 234, 101 já passaram dos 65. Os miúdos são 17, o número de uma turma. O resto é gente que ficou porque alguém tinha de ficar, ou que voltou porque o dinheiro do estrangeiro não chegava para a solidão.
Pedra que resiste
Há dois monumentos com classificação. Um deles é Monumento Nacional, o que quer dizer que o Estado se lembra dele de vez em quando. O castelo é do século... bem, é antigo. As pedras são as mesmas da serra, só que cortadas em forma. Não há filas, não há bilheteira, não há souvenir. Há um cão, às vezes dois. E há o velho Adrião que, se o apanhar no café, lhe explica tudo o que a pedra não conta — mas não lhe dê atenção que ele depois não se cala.
À mesa, o território
O queijo Terrincho é mesmo daquelas ovelhas que se vêem no caminho. Tem gosto a erva rachada e a tardes sem fim. O borrego é o borrego — não é novidade nenhuma, é o que sempre se comeu quando havia motivo. O cabrito é das cabras que roubam as amendoeiras, que por sua vez são as mesmas que depois aparecem cobertas de flor e a parecerem mentira. O azeite é de Trás-os-Montes, mas não se passe — aqui há quem o chame "nosso" porque vem a 30 quilómetros e isso, por estas bandas, é quase ao lado.
Caminho e contemplação
O Caminho de Santiago passa aqui, mas não é aquele dos americanos com bastões de carbono. É o de quem vem de Alvaiázere com as meias a cheirar a fim-de-semana e uma fé que ainda não decidiu se é em Deus ou em si próprio. Marca-se com uma seta amarela mal pintada num muro onde alguém escreveu "Manuela volto já". Os peregrinos param no fontanário, bebem água, perguntam se há café. Há — é ao lado, mas está fechado à segunda. Não é segunda? Então está fechado na mesma, é a vida.
Quando o sol se põe atrás do Marofa, a aldeia fica a preto e branco como os tempos antigos. Acendem-se luzes uma a uma, não por magia — é a hora das notícias na TVI. O sino toca, mas ninguém vai à missa. Toca porque é assim, como se estivesse a bocejar. E depois é o silêncio. Um silêncio tão grosso que se ouve o cão do Zé Manel a ladrar em Marialva — e Marialva fica a 10 quilómetros.