Artigo completo sobre Atalaia e Safurdão: Moinhos em Ruína no Planalto
União de freguesias em Pinhel preserva memória moageira e igreja barroca saqueada por Napoleão
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O sino da igreja — mais conhecida por "Nossa Sr.ª Mãe dos Homens" — dá as três badaladas e o som vai-se arrastando pelo planalto como gato que não quer ir para dentro. São 733 m de altitude, mas o que importa é que, se o vento está de norte, leva o rumor até à ribeira das Barrocas, onde trinta e oito moinhos, todos em ruína, ficaram alinhados como jogadores de equipa que perderam o autocarro. O ar cheira a rosmaninho e, se cheirar a esteva, é porque vem aí chuva. Atalaia chama-se Atalaia porque vem de talea, "olhar ao longe", e é isso que a aldeia faz há séculos: vigia. Safurdão, mais pequena, esconde-se no fundo do vale como quem não quer marcar presença. Duzentas pessoas vivem na união de freguesias inventada em 2013; cento e vinte e uma delas já lá vão nos sessenta e cinco. O silêncio não é ausência; é arquivo.
Quarenta moinhos e uma invasão
No século XIX, Atalia era a fábrica de farinha da zona — quarenta moinhos a trabalhar ao mesmo tempo nas duas ribeiras. Alguns tinham três pares de mós, o que na altura era o equivalente a ter hoje três garagens. O último moleiro, João Pires, fechou a torneira da água em 1955. Hoje, os canais estão cobertos de musgo e as paredes de pedra aguentam-se de pé por teimosia. A igreja, Monumento Nacional, levanta-se no meio da aldeia com aquele ar de quem sabe que já foi roubada por franceses: em 1808 levaram com tudo, inclusive o relicário de prata. Os paroquianos enterraram o sino no adro; os soldados não iam meter a piqueiro na terra à procura de metal. No domingo mais perto de 15 de agosto ainda se faz romaria — nos anos 50 vinham cinco mil pessoas, hoje vêm umas centenas, mas o forno da padaria aquece na mesma.
Azeite, cabrito e vinhos da Beira
A chanfana leva cabrito, vinho tinto, louro, alho e vai para o forno de lenha dentro da panela de barro. Se levar outra coisa, não é chanfana — é engano. O azeite DOP da Beira Alta é feito de galega e verdeal: basta um fio em cima da sopa para a senhora da tasquinha lhe perguntar se "está a ver agora como se começa a comer bem". O cozido de graúdo tem de ter paio, chouriço e morcela fumados; senão, é só sopa com couves. O queijo de ovelha da Marofa não derrete na primeira tosta — aguenta-se. Para beber, há vinho da Beira Interior na Adega de Pinhel, a doze quilómetros: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Jaen. Leve garrafa, porque de lá para cá não há bombas de gasolina nem lojas de vinho.
Trilho do Vale das Barrocas
São seis quilómetros que começam na igreja, descem à ribeira, passam por moinhos que parecem prontos a desabar mas não desabam, e depois sobem até Safurdão. Leve calçado que não escorregue: as pedras estão tapadas de musgo e a água corre por cima. Às vezes vê-se uma garça-real no mesmo sítio onde o pai do Zé Manel pescava. Se der sorte, encontra pegadas de lontra na lama. No Penedo do Alto Pina, antigo posto de vigia, o Douro aparece lá em baixo como uma fita cinzenta. À noite, o céu é tão escuro que até as estrelas parecem barulhentas.
Ceia das Barrocas
Na noite de 24 de dezembro junta-se toda a gente no largo: sopa de abóbora, vinho quente, broa de milho. O Zé Manel leva sempre uma garrafa de aguardente "para o caso de o vinho estar frio demais". A 20 de janeiro é a procissão de São Sebastião: benzem-se os campos, acendem-se fogueiras e cantam-se ao desafio modas que ninguém escreve mas toda a gente sabe. No Domingo de Páscoa, o "Encontro" acaba com a queima do "Facho" — uma fogueira que clareia a noite e faz as paredes das casas parecerem de dia.
Água parada nas levadas, moinhos que já não moem, sino que ainda toca. Quando o vento vem de norte, por um instante parece que a roda vai voltar a mexer.