Artigo completo sobre Manigoto: onde o sino ecoa sem muros no vale
Freguesia de Pinhel a 684 metros, entre olivais centenários, granito lavrado e 150 habitantes
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O sino da igreja soa ao meio-dia e demora sete segundos a desvanecer-se na linha de água do Ribeiro de Manigoto. Em Manigoto, a 684 metros de altitude, não há prédios — apenas 63 casas de granito espalhadas por 1588 hectares onde o xisto aflora entre os 47 hectares de olival registados na DGAO de 2022. O vento desce da Serra de Pinhel e traz o cheiro a carvalho queimado que a fábrica de cortiçado de Pínzio ainda utiliza nos secadores.
São 150 pessoas que constam no recenseamento de 2021. Destas, 87 têm mais de 65 anos; cinco crianças frequentam a escola básica de Pinhel, a 14 quilómetros. A densidade populacional — 9,44 habitantes/km² — traduz-se em silêncios de 3 a 4 minutos entre encontros, tempo que demora a percorrer os 600 metros que separam o Largo da Igreja da Casa do Povo, encerrada desde 2018.
Azeite e granito
Os socalcos medievais ainda visíveis no Cabeço da Forca sustentavam 120 hectares de sequeiro em 1960; hoje restam 23, segundo o mapa de ocupação do solo do ICNF. As 1 800 oliveiras da variedade Cobrançosa — plantadas entre 1923 e 1947 — produzem 2 500 litros de azeite anuais, engarrafados como Azeite da Beira Alta DOP. O lagar cooperativo de Pínzio, inaugurado em 1954, recebe azeitona de Manigoto durante três semanas em novembro; a última modernização foi em 1998, quando substituíram as prensas de pano por decanter horizontal.
O granito do Ordovícico — com 480 milhões de anos — foi extraído na pedreira do Carvalhal até 1973. Está nas cunhas das portas do século XVIII, no eixo do moinho de água desativado em 1967, nos 47 bebedouros catalogados pela associação de caçadores. A casa mais antiga, na Rua da Fonte, tem a data de 1742 gravada na ara da porta — ano da reconstrução após o terramoto de 1727.
À mesa, a Beira
O cabrito da raça Serrana — IGP desde 1996 — é criado em pastoreio extensivo nos 800 hectares de montado. No forno comunitário, aceso cinco vezes por ano, assa-se com alecrim colhido na Serra de Pinhel durante 3 horas a 180ºC. Nos dias de festa — 15 de agosto e 29 de novembro — a cooperativa agrícola fornece 30 litros de vinho branco da Casta Fonte Cal para o arroz de fressura, receita documentada pelo padre Américo em 1934. A broa de centeio leva farinha móida no moinho de Pinhel, encerrado em 1982 mas reaberto como museu em 2003.
Caminhar entre o visível e o ausente
O caminho de servidão nº 3 — aberto em 1956 para transportar cortiça — leva à Fonte da Pipa, onde se lê ainda "1929 - Ano da fome" gravado na pedra. São 2,3 quilómetros com desnível de 140 metros, passando pelo borralhal onde cresciam 12 hectares de centeio até 1975. Hoje só restam as leiras em degraus, onde o Corujedo-da-Beira nidifica desde 2018 — primeira citação para o concelho de Pinhel.
Às 17h30, quando o sol rasca no cimo do telhado da escola primária (encerrada em 2009), a sombra projeta-se exactamente sobre o muro onde se lia "Viva o 25 de Abril" — pintado em 1975 e apagado pela chuva granítica. Não há placas: basta seguir o cheiro a esteva em flor (maio) ou o som da Brita-ferreirinha (Luscinia megarhynchos) entre abril e julho.