Artigo completo sobre Souro Pires: pedra, azeite e vida no planalto do Côa
Freguesia beirã a 637 metros de altitude, entre montado de sobreiros e olivais centenários
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O sol da manhã entra pela porta entreaberta da igreja e desenha um rectângulo de luz sobre a pedra gasta do adro. Lá em baixo, o vale do Côa dorme ainda sob uma camada fina de nevoeiro, enquanto o sino da torre — um único bronze suspenso — marca as oito badaladas sem pressa. Souro Pires acorda devagar, ao ritmo de quem sabe que o dia não foge. Aos 637 metros de altitude, o planalto quartzítico respira fundo antes de começar.
A freguesia estende-se por 1567 hectares de montado e olivais, terra onde o xisto aflora em muros secos e o sobreiro cresce torto, moldado pelo vento da serra. O nome — "Souro" da pedra que aqui se extraía, "Pires" de algum proprietário medieval esquecido — guarda memória de uma ocupação antiga, de quando estas terras de fronteira se organizavam em torno de pequenas propriedades e de uma igreja matriz. Hoje são 473 habitantes, muitos deles reformados que regressaram de França e da Suíça para recuperar os casais de granito e xisto, devolvendo vida às casas vazias.
Pedra, talha e luz barroca
A Igreja Paroquial ergue-se no centro da aldeia, nave única e frontão simples, reconstruída no século XVIII sobre fundações medievais. Dentro, a talha barroca da capela-mor brilha discreta à luz das velas, e um pequeno retábulo guarda uma pintura de época que poucos param para observar. No lugar de Penaverde, os casais antigos mantêm a estrutura original — paredes espessas de xisto, umbrais baixos, portadas de madeira gretada pelo tempo. No lagar desactivado, a mó de granito repousa imóvel, testemunha silenciosa de décadas a esmagar azeitona.
Azeite novo e borrego no forno
A cozinha de Souro Pires segue o compasso da Beira Interior: migas com costas de porco, ensopado de borrego, cabrito assado no forno de lenha — IGP Cabrito da Beira, carne tenra que se desfia ao toque do garfo. Os enchidos caseiros secam nos fumeiros, chouriço de carne e alheira temperados com alho e colorau, morcela escura que se frita ao pequeno-almoço com fatias de pão de testo. O azeite DOP Azeites da Beira Interior, sub-região Beira Alta, é o ouro líquido da freguesia: verde-intenso no final do ano, quando se prova ainda tépido no lagar cooperativo de Pinhel, deixando na garganta um ardor que arranja a tosse. Nos doces, o bolo de noz esfarela-se na boca, e o arroz-doce queimado deixa uma crosta estaladiça na superfície — a Maria do Carmo faz o melhor, leva-o ao forno até o açúcar fazer bolhas e ficar preto como o carvão.
Trilhos de xisto e céu sem mácula
A Rota do Azeite percorre seis quilómetros entre a aldeia e o olival centenário, caminho de terra batida onde o silêncio só é interrompido pelo canto da cotovia ou pelo ranger da charola do José quando sobe com o tractor para apanhar azeitona. A Serra de Pinhel desenha-se a norte, trilhos usados por pastores que sobem com os rebanhos ao amanhecer e descem ao crepúsculo, os cajados a bater ritmo na pedra. Não há zonas de protecção especial, mas o abutre-do-ventre-branco plana alto sobre os lameiros, e na Primavera as orquídeas silvestres pintam de roxo e amarelo as bermas dos caminhos — a Rosa sempre soube onde encontrar as primeiras, perto da cisterna velha onde os rapazes fumavam os primeiros cigarros escondidos. No Verão, quando a noite cai limpa, a associação local promove serões de observação de estrelas — o céu aqui é negro puro, sem poluição luminosa, e a Via Láctea rasga o firmamento de lado a lado. O António traz o telescópio que comprou na Suíça, e as crianças maravilham-se com as luas de Júpiter enquanto os pais bebem aguardente de medronho que o Sr. Alfredo destila no lagar abandonado.
O português da raia
Ainda se ouve, nas conversas dos mais velhos no café-recinto, o "português da raia" — vocábulos mirandeses que resistem ao tempo, palavras que não se encontram em mais lado nenhum. O Manuel diz "chapeleiro" quando fala do chapéu, e a Olinda chama "lajedo" ao chão de pedra da cozinha. No primeiro domingo de Outubro, a missa campal em honra de Nossa Senhora do Rosário junta antigos residentes e visitantes num almoço partilhado ao ar livre, toalhas de xadrez estendidas sobre as mesas de pedra, vinho tinto servido em jarros de barro. As mulheres trazem panelas de ferro com o ensopado, os homens acendem o fogo para assar as castanhas, e os filhos que vieram de Lisboa ou do Porto contam histórias da cidade que soam a mentira aos ouvidos dos netos.
O vento da tarde traz o cheiro a lenha queimada, e o eco dos passos na calçada devolve ao caminhante o som dos seus próprios movimentos. Aqui, o que fica não é a pressa de chegar — é o peso quente da pedra sob as mãos, a luz rasante sobre o vale, o sabor a azeite novo ainda na língua.